Existe uma diferença entre historiadores de profissão e escritores que desejam trabalhar com a História. Historiadores dão conta das coisas que povoam a memória no passado. Trabalham com fontes. Arquivos, ofícios, requerimentos, listas nominativas de vilas, documentos de terras, registro de obras, rol de escravos, certidões, testamentos, nada lhes é estranho. Escritores imaginam o que o passado seja e trabalham com o imaginário e com a fantasia. Escritores só contam com o risco.
A História exerce uma fascinação evidente sobre qualquer escritor. No entanto a Literatura não é a História. Ela é feita de pequenas e fragmentadas histórias. Você quer usar o conhecimento sobre o passado para escrever um romance, um conto ou qualquer uma dessas formas literárias de ficção? Deseja situar uma narrativa ficcional em uma época que já se foi ou falar de acontecimento que já ocorreu?
Então aqui vai um pequeno lembrete (sem a pretensão de um conselho, mesmo porque como diz a ácida sabedoria popular, ironizando o capitalismo: “Se um conselho fosse bom, ninguém dava, vendia”). Bem, para cumprir essa tarefa histórica memorial no campo da Literatura, você precisa passar por muitas formas de representação. Tudo serve: retratos, boatos, fragmentos de correspondências, lembranças (falsas ou verdadeiras), lendas, imagens, intuições e outras coisinhas mais. Uma narrativa de ficção literária tem como cartografia o tecido de dores e amores que acometem as criaturas em qualquer longitude ou latitude, sem a obrigação de fixar os dados ditos como “verdadeiros”.
Como ensina Hans Ulrich Gumbrecht, em seu magnífico livro “Em 1926: vivendo no limite do tempo”, “a verdadeira questão por trás de saber o que fazer com nosso conhecimento sobre o passado não é a questão – mais ou menos técnica – de saber como escrever ou representar a História, é preciso saber o que nós imaginamos o que o passado seja”.
Para quem escreve ficção, o tempo é um dado esquivo, voluptuoso e volúvel. Logo, o passado pode ser tomado como uma matéria crua, que permanece em estado latente antes mesmo que quem queira escrever uma história sobre algum tema ou aspecto que nele se desenrole comece a pensar sobre as formas possíveis de representá-lo, para depois dar-lhe corpo com a carne, os nervos e os ossos das palavras.
A ficção literária permite esse embaralhamento semântico, essa mistura de fatos e boatos, essa loucura de sonhos e materialidades. Pois a Literatura está mais para a oscilação do jogo e da brincadeira de que para a eficiência científica em busca da exatidão.