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Atualidade

Alguma coisa ainda está fora da ordem

É certo que, na segunda década do século XXI, o mundo continua a ser o que sempre foi: uma máquina desparafusada e desregulada

Públicado em 

26 abr 2022 às 02:00
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

Planeta Terra
Planeta Terra: em qualquer etapa da história humana é fácil encontrar alguém, algum governo ou algum povo que considera necessária a submissão de outro alguém, outro governo ou outro povo, para garantir um estado de soberania Crédito: Pixabay
Nos rastros acesos da década dos 70, um compositor e cantor, John Lennon, encantava as pessoas com o convite para imaginar um espaço coletivo, onde houvesse paz, amor e solidariedade. Em 1991, outro cantor e compositor, Caetano Veloso, falava da possibilidade de vivenciar alguma coisa fora de uma falada Nova Ordem, que estaria se afirmando desde o fim da Guerra Fria, sobretudo com o desmoronamento do bloco soviético e a Guerra do Golfo.
Vocês se lembram dessas canções? Em “Imagine”, Lennon dizia: “Imagine todas as pessoas/Compartilhando o mundo inteiro”. O sonho do ex-beatle era um mundo sem divisões ou fronteiras, compartilhado de modo igual por toda a humanidade, com as criaturas vivendo em paz, sem lutas, sem razões para matar ou morrer.
Em “Fora da Ordem”, Caetano cantava: “Eu não espero pelo dia/Em que todos os homens concordem/ Apenas sei de diversas harmonias bonitas/Possíveis sem o Juizo Final”. O músico baiano se referia ao perigo de guerras e disputas que representava a deturpação daquele sonho de Lennon, apontando uma solução menos globalizada para os conflitos de que aquela ideia da “New World Order” (Nova Ordem Mundial), saída da cabeça de governantes norte-americanos e voltada para uma coordenação política e econômica global.
Pode até ser que alguém muito “atualizado” considere antigas e defasadas as duas canções. Mas qualquer semelhança com o que agora está ocorrendo não é mera coincidência. E ambas batem com os anseios de quem sofre pelos dias sombrios, beligerantes e angustiantes de hoje.
É certo que, na segunda década do século XXI, o mundo continua a ser o que sempre foi: uma máquina desparafusada e desregulada. Em qualquer etapa da história humana é fácil encontrar alguém, algum governo ou algum povo que considera necessária a submissão de outro alguém, outro governo ou outro povo, para garantir um estado de soberania.
Também é certo, e ninguém ignora, que tal arrogância de supremacia por vezes camufla interesses econômicos, políticos ou imperialistas que, de tão obscuros, escapam a qualquer filosofia vã. No entanto, as facilidades de comunicação de agora, sobretudo com internet e redes sociais, escancaram o balaio do disse-me-disse, expondo a carne, os ossos e os nervos corroídos do corpo de nosso planeta.
O resultado é que estamos vivendo de modo meio descrente, meio espantado, meio desesperado e meio patético. Sem saber se o Juizo Final, de que fala Caetano, já começou de fato ou se esse é um começo de Apocalipse, que se estenderá. Ainda por quanto tempo?

Bernadette Lyra

É escritora de ficção e professora de cinema. Escreve às terças-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporâneos

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