Há 75 anos, em um dia 13 de abril, nascia um menino. O nome do menino era Sérgio. Tinha a sina inscrita entre as montanhas de agulhas agudas e as águas encachoeiradas pelas pedras do rio, na cidade de Cachoeiro do Itapemirim. Coisas familiares que, algum tempo depois, deixou para trás. Foi à caça de um sonho. O sonho de ser compositor e cantor conhecido.
Mas aqueles eram dias pesados, eram anos de chumbo. A maré não estava pra peixe, muito menos para quem fazia arte e disso desejava viver. Qualquer semelhança não é mera coincidência com o que disse Gilberto Gil, em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras: “Poucas vezes na nossa história, o escritor, o artista ou o produtor de cultura foi tão hostilizado como agora”.
O certo é que o sonho daquele menino se foi pelo ralo das adversidades e ele passou poucas e boas, por muitas e más. Mas conseguiu uma fresta ao sol quando foi aplaudido, comentado e reconhecido ao “botar seu bloco na rua”, no Sétimo FIC (Festival Internacional da Canção). À época, os festivais lotavam auditórios, inundavam o éter e chegavam às famílias diante da telinha da televisão. Depois, a inconstância cruel dos aplausos foi cessando e ele foi quase esquecido.
Vocês se lembram do poema-bandeira de Hélio Oiticica: “Seja marginal, seja herói”? Nas décadas dos 60/70, era comum que poetas, que elegiam a música como forma de expressão e não se enquadravam em certas tiranias e regrinhas de artistas, fossem considerados à margem, por donos do mercado e por consumidores.
Muitas vezes a marginalidade justificava o fato de não ter dinheiro, não ser reconhecido oficialmente, não frequentar os lugares onde a elite econômica se refestelava e de onde partiam as radiações para escolhas de quem podia ou não podia acontecer no universo cultural.
No entanto marginal não é quem está na margem desprivilegiada e menosprezada. Marginal é quem ocupa a terceira margem do rio (ah, Guimarães Rosa!). É quem seja capaz de permear ao mesmo tempo o lá e o aqui, o passado e o agora, o isto e o aquilo, o nunca e o sempre, sem cair no ramerrão comum.
Desde sua estreia, Sérgio Sampaio viveu esse tipo de marginalidade. Cantou, ele mesmo, na primeira pessoa, suas próprias angústias e medos, com serenidade dolorida e espantosa, sem lamúrias, sem culpa, sem exageros, sem indecisão.
Certo é que devemos a esse nosso poeta cantor e compositor um reconhecimento e uma gratidão que talvez nunca tenha tido o gosto de experimentar enquanto viveu. Sobretudo, porque, até a morte, ele teve coragem e jamais desistiu de sonhar.