Mais uma vez saio pelas ruas do Centro, como sempre gostei de fazer. Mas o que encontro ou deixo de encontrar me arrepia as escamas (na verdade, não se animem os possíveis alguns desafetos com essa serpejante metáfora, pois escamas, não tenho o privilégio de tê-las, é apenas modo de falar).
Bem, não sou uma flâneuse no sentido que o poeta Baudelaire deu a esta palavrinha simpática, antes que a modernidade pisoteasse o planeta. O que aprecio mesmo é navegar como barca extraviada, colhendo fragmentos do cenário, caminhando e olhando e seguindo a canção. Faz parte de minha profissão de criadora de histórias.
Só que o que agora vejo não é nada animador. Muito prédio antigo caindo; muita fachada manchada de tempo; muita janela oca; muita calçada quebrada; muita rua malconservada; muitos seres estranhos que carregam cobertores e panos esfiapados nos ombros, andam como fantasmas furtivos e não perdem a oportunidade de se aproximar para pedir uns trocados.
“São os noias”, me diz o vendedor à porta de uma loja vazia, “a senhora tenha cuidado. São capazes de tudo para conseguir o dinheiro da droga. Veja, hoje, tivemos de fechar. Estamos no escuro, sem eletricidade, porque eles roubaram os fios de cobre do estabelecimento”. Confesso que isso azeda meu dia e estraga a andança que eu julgava que seria bem mais promissora. Mais que tudo, porém, o que me desalenta é o lamentável estado de alguns dos lugares por onde caminho no circuito do chamado Centro Histórico da Ilha.
Vocês sabem que um Centro Histórico tem valor cultural, social e turístico. Inclui edifícios, locais e monumentos que datam dos primeiros anos de nascimento de uma cidade e marcam seu perfil. São como deuses do passado, silenciosos e antigos. Desempenham papel de guardiães da ancestralidade que atravessa os tempos e persiste na galáxia da urbanidade. Por essa razão, geralmente estão protegidos pelas autoridades por meio de leis e de regulamentos. Assim, dói vê-los abandonados.
No Centro de Vitória, um dos mais tristes casos é o Viaduto Caramuru, transformado em estacionamento. Um guardador de veículos, que faz anos parece ser do local o dono - com direito a horário de trabalho, cadeira de espera, pochete de arrecadação e mais tudo - mantém ali uma freguesia habitual e fiel. Mas de quem é a culpa de tanto descaso pelo patrimônio e pelas leis (vide o CTB), se o guardador e os motoristas dos carros se sentem acobertados, não se importam e não dão a mínima nem mesmo para a placa de “Proibido Estacionar” que, finalmente, no viaduto foi instalada?