Mais uma vez o Ocidente se agarra, com unhas e dentes, a uma volta da Terra em torno da estrela. É como se tudo fosse mudar apenas porque as convenções gregorianas determinam que tem início, em janeiro, o eterno recomeçar dos 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 14 segundos que o planeta leva para fazer sua ronda de translação.
Festas e fogos, bebidas e comidas, beijos e abraços, tudo vale para amenizar um pouco o medo que segue a nos assombrar como um avantesma. Pois não dá para esquecer que ainda estamos aprisionados neste hiato de uma doença cruel, criada por um vírus traiçoeiro.
Os dias de agora não são doces para nada nem para ninguém. Muito menos para a literatura. Há até quem diga que estamos vivendo um momento em que a humanidade não precisa de escritores ou poetas. Isso lembra a pergunta que Johann Christian Friedrich Hölderlin fez a si mesmo: “Para que poetas em tempo de pobreza?”.
Vocês sabem que Hölderlin era um moço de coração roído pela solidão. Vocês sabem que ele era dado à melancolia e que cultivava um afastamento daqueles que o desprezavam e o acusavam de ser um mero imitador de Schiller. Talvez essa falta de aceitação, traduzida em desprezo por parte de seus contemporâneos, fosse aquela pobreza a que ele se referia.
Mas isso é diferente de dizer que fazer literatura é coisa desnecessária em tempos de miséria econômica e de sentimentos desta pandemia. É certo temer essas duas misérias. A primeira é como um eterno fantasma a rondar populações imensas, que subsistem em casebres ou no meio do lixo, comem restos, dormem ao relento, morrem de frio e de fome. A segunda é como uma droga que embrutece, emburrece e anestesia as pessoas, tornando irrelevante qualquer manifestação de afeto.
Porém, só se atravessa um abismo quando não se tem medo de despencar no vazio. Se essa dupla miséria pandêmica – de recursos e de espírito – nos cerca, nos asfixia e limita o acesso à produção literária e à leitura por parte de certos indivíduos, sobretudo em comunidades mais brutalizadas pela violência social e menos favorecidas pelos bens da fortuna, melhor faremos em manter as reservas culturais e artísticas permanentemente, como uma forma de crença na persistência.
Afinal, algum dia, talvez a esperança deixe de esvoaçar por aí tal qual uma verde mariposa tonta e resolva pousar de verdade no país e no mundo. E assim talvez todas as criaturas, uma vez incluídas no direito aos bens e à igualdade, possam cobrar para si a riqueza de cultura e de arte que a literatura tem o dom bendito de materializar.