Antes que setembro se acabe, é preciso louvar um dos mais ilustres homens destas nossas paragens. Alguém que nasceu em setembro, mais precisamente no dia 14, quando o inverno já se despedia do ano de 1906.
Esse fragmento biográfico deveria ser reconhecido por quem se interessa pela trilha de nomes notáveis que a memória cultural vai deixando como migalhas para marcar o caminho. Mas a memória cultural nem sempre é uma “memória lembrada”, atropelada que é por relaxos e esquecimentos, quando não por novidadeiros desprezos. Permitam-me então recordar esse alguém a quem me refiro: Guilherme Santos Neves. E recordar também o precioso legado que ele nos deixou.
Sendo intelectual refinado, professor respeitado, pesquisador de alto brilho, doutor Guilherme (como era conhecido em todas as vilas e cidadezinhas que visitou) permitiu que sua estima pela cultura popular convivesse de perto com sua dedicação ao ensino da língua portuguesa e da literatura em escolas e universidade.
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Tomou para si um afeto pelas coisas mais simples: as cantigas de roda, os “cantes” do Ticumbi, os pontos de jongo, os versos romanceados, as folias de Reis, as toadas de congo, enfim, a infinita variedade de manifestações ancestrais que, há séculos, sedimentam o solo e o espírito (não só o santo, mas também o profano) deste nosso amado estado.
Imensa foi a riqueza cultural que ele registrou de todas as maneiras. Uma singela recordação me dá conta de sua presença luminosa portando um gravador Webster a fio imantado, ocupando-se em registrar personagens e eventos do povo.
A boa notícia é que toda sua produção (ou pelo menos boa parte dela) pode agora ser acessada, graças à Lei Aldir Blanc que, em boa hora, trouxe alívio a dias pandêmicos. O projeto “Registros Sonoros do Folclore no Espírito Santo” foi desenvolvido pelo Instituto Goia e pela Pique-Bandeira Filmes, com apoio da Secult, ES, da Secretaria Especial de Cultura do Ministério do Turismo, do Governo Federal, a partir de um trabalho de pesquisa, restauro, conservação, digitalização, inventário e divulgação do “Acervo Guilherme Santos Neves”, até então guardado por familiares.
Tomara que esse belo trabalho reverta, com gratidão e proveito, às instâncias visitadas por ele em suas andanças de norte a sul, do mar à montanha. E que o Mestre Guilherme permaneça em nossas lembranças, com a ternura, a leveza, a generosidade que sempre dedicou às vivências culturais capixabas, e que estão cravadas no cristal da memória de quem teve a graça e a sorte bendita de tê-lo conhecido.