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Etarismo

Pelo simples direito de envelhecer

Estranho é existir tanta discriminação para com uma etapa da vida da qual nenhuma criatura poderá escapar. A não ser que morra cedo

Publicado em 07 de Dezembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

07 dez 2021 às 02:00
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

Entre os “ismos” com que as sociedades costumam rotular as discriminações de cor e sexo (racismo, sexismo etc), inclui-se o “etarismo”. Vocês sabiam que essa palavra esquisita foi criada pelo gerontologista Robert Butler, para nomear o tratamento de intolerância que muita gente dedica à velhice? Pois é. Existe quem trate com desprezo as pessoas que envelheceram. Existe quem as julgue incapazes de produzir coisa de algum proveito. Existe quem despreze suas vontades, seus sonhos e seus sentimentos. Estranho é existir tanta discriminação para com uma etapa da vida da qual nenhuma criatura poderá escapar. A não ser que morra cedo.
Assim pensando, o envelhecimento passa a ser um privilégio de resistência biológica que não é concedido a toda humanidade. É certo que essa resistência não se dá sem um preço a pagar. Há uma idade em que a fraqueza do corpo reflete a ação devastadora do tempo sobre tudo aquilo com que se estrutura o organismo humano.
Sem falar que a presença cada vez mais próxima da morte destrona a ideia de que somos imortais. Mas isso não pode servir de desculpa para maus-tratos, descaso ou “cancelamento” (para usar um termo da hora, aliás bem chatinho). Muito menos quer dizer que a velhice torna a mente e a criatividade incapazes de desfrutar esse tempo de muitos anos vividos.
Um bom exemplo é a peça de Bertold Brecht “A velha dama indigna”: Berthe, uma viúva de idade avançada, de repente, resolve acabar com o dia a dia caseiro e medíocre que levava junto ao marido e a seus cinco filhos. Para escândalo geral, Berthe começa a sair, a ter amizades com moças de vida livre, como Rosalie, uma garçonete, e a conversar com senhores como Alphonse, um sapateiro loquaz. Ela passa a frequentar restaurantes e bares e a se divertir infinitamente com as coisas mais simples e mais desejantes da vida, como tomar sorvete e andar pelas ruas, enfrentando com bom humor e alegria as reclamações dos familiares, que a chamam de indigna enquanto eles mesmos permanecem a viver indignamente, apegados a tradições, a regras aborrecidas e ao trabalho maçante, feito sem gosto, sem élan, sem alma.
É certo que a velhice traz dores. Ninguém sobre o planeta poderá se gabar de estar imune às mazelas que o tempo faz caber aos viventes. Não é à toa que diz o ditado: “o pau que dá em Chico também dá em Francisco”. Mas a lição que se tira da peça é que o direito de envelhecer passa pelo reconhecimento e pelo respeito de quem quer que seja. E passa também pela ânsia de realizações pessoais, do modo maior e melhor de que cada um é capaz.

Bernadette Lyra

E escritora de ficcao e professora de cinema. Escreve as tercas-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporaneos

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