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Crônica

Para o segundo domingo de maio

Neste dia, devemos lembrar a coragem daquelas mães que ousam resistir e viver, ainda que com a dor de uma chaga tão cruel e profunda que nunca se fecha

Publicado em 09 de Maio de 2023 às 00:10

Públicado em 

09 mai 2023 às 00:10
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

Dia das Mães
Dia das Mães Crédito: Luis Baltazar/katemangostar/Freepik
Mãe é mais feminino dos substantivos. E alguém pode ser mãe de muitas maneiras: dando à luz uma outra criatura, adotando alguém que perdeu sua mãe, cuidando dos filhos de outra mulher e outras circunstâncias. Dito isso, penso que satisfaço a ânsia de bendição que essas três letrinhas despertam na alma. Três letrinhas. Pelo menos na língua portuguesa, pois em outras línguas muitas outras letrinhas se juntam para “caber o infinito”, que é como o poeta Mário Quintana define a palavra.
O destino das palavras usadas pelas gentes que habitam o planeta é incerto. As palavras nascem, se transformam e morrem. São finitas. Essa coisa complexa e misteriosa que se chama tempo não perdoa o infinito. Mas existe uma prerrogativa na linguagem que desafia o tempo e o espaço. Dizem os etimologistas que em algum lugar do mundo (talvez na Europa, quando a Europa ainda não era esse continente hoje esboroado, ferido de guerras e desavenças), dizem esses entendidos na reconstrução de línguas ancestrais que no passado dos povos, há mais de 5000 anos, uma criança dizia “méh*ter” para chamar a mãe.
Talvez por isso a letra “M” de mãe, mãezinha, mãezona, mami, mamãe, como agora nos referimos àquela mulher que nos “deu à luz"(só para citar o epíteto bíblico) inicia a palavra “mãe” em uma infinidade de línguas no mundo. Não por acaso o som da bilabial também está presente no primeiro balbucio de uma criança, desde que a humanidade se deu conta da dependência que une o bebê ao seio que o alimenta.
Quando as mães escutam esse primeiro “ma”, o coração delas estremece. E se dão conta que, para a vida inteira, e mesmo depois, estarão aprisionadas àquele ser humano indefeso que, por meses, habitou o seu ventre. Pois como diz Drummond: “Mãe não morre nunca, / mãe ficará sempre/junto de seu filho/e ele, velho embora, /será pequenino/feito grão de milho”. O poeta tem razão. Esse sentimento de estar junto perdura para além mesmo da morte materna. Mas não nos esqueçamos de que esse laço indissolúvel se estende, pelo avesso, àquelas mães que choram a perda de uma filha ou de um filho
No segundo domingo de maio, podemos nos permitir momentos de regozijo. As mães são homenageadas entre presentes, flores, músicas e afetos. E, no entanto, neste dia, devemos lembrar a coragem daquelas mães que ousam resistir e viver, ainda que com a dor de uma chaga tão cruel e profunda que nunca se fecha. É nelas que penso agora, enquanto escrevo estas linhas, virada para mim mesma para poder escrever.

Bernadette Lyra

É escritora de ficção e professora de cinema. Escreve quinzenalmente, às tercas-feiras, sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporâneos

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