Existe uma estranha mania de supervalorizar e enaltecer, com orgulho, artistas capixabas que conseguem fazer carreira em outros Estados, pretensamente mais badalados que nosso Espírito Santo. Não que isso seja ruim ou demérito desses endeusados pelo senso comum. Mas fica um travo amargo quando se percebe que tanta gente que ficou por aqui, aqui viveu, aqui fez sua trajetória nos caminhos da literatura, do cinema, da música, da pintura, da fotografia, enfim, de alguma arte, não passa, agora, de uma vaga lembrança perdida nas brumas do esquecimento.
Este meu desabafo pode ser aplicado a quem já partiu desta para melhor. Olival Mattos Pessanha é um poeta que se encaixa no eufemismo.
Guardo a lembrança do tempo em que ele e eu nos fizemos amigos, na primeira turma a ocupar o campus da Ufes. Naqueles anos universitários, passaram-se coisas incríveis. Atravessávamos pontes improvisadas sobre a lama para alcançar as salas de aula do curso de Letras. Às vezes, pequenos batráquios nos olhavam com olhos redondos, entre versos sobre as lamentações da bela Inês de Camões, variantes latinas, descobertas de poemas medievais.
Eu me lembro bem das primeiras casuarinas; dos primeiros prêmios literários; da bengala de Carmélia pousada na grama a nossos pés; de Tatagiba em um ataque de ceticismo distribuindo livros. E lembro aquela tarde em que Olival nos apresentou um poema que ele dizia ser a assinatura de Deus e que descobrimos, depois, que era a impressão digital de seu próprio dedo e tudo terminou em risos, laranjada, goles de vodka e planos para quando fôssemos escritores famosos, coisa com que sonhávamos com a mesma inocência dos crédulos.
Também lembro que naquela hora os pardais faziam algazarra e o sol estava doce.
Depois houve a dispersão da turma, cada qual para seu lado. Vez em quando nos encontrávamos no Centro da cidade, cada vez mais cheio de pessoas e buzinas de carros.
Ele falava do calor e do frio; das estações perplexas; da falta de tempo para escrever e organizar recitais de poesia; da premência de ganhar a vida; das decepções tidas com os “donos da cultura”; da necessidade de resgatar a obra dos companheiros mortos.
Havia aquele brilho desalentado de sonhos irremediavelmente perdidos em seu rosto enquanto falava disso. Talvez seja por meus próprios sonhos perdidos que, hoje, penso em Olival. Mas não sinto dor com esse pensamento, só reivindico que ele seja lembrado. É como uma cicatriz na memória: guarda relação com o caco de vidro, a ferida, o sangue e o grito, mas não passa de uma cicatriz, uma lâmina fina gravada na superfície da pele do tempo.