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Crônica

Para o aniversário da morte de Fernando Tatagiba

Dia 31 de março fez 36 anos da morte de meu querido amigo Fernando Tatagiba, escritor que merece ser sempre lembrado

Públicado em 

07 abr 2026 às 03:00
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

THRILLER (PARTE 1)
Imagino se eu pudesse marcar um encontro com Tatagiba. Ele mesmo, o Fernando, que soturnamente caminhava pelas ruas, agarrando-se às lembranças como um musgo se gruda em uma parede velha. Seria na rua Sete, esquina com a 13 de Maio, embora nosso ponto de encontro, a lanchonete Sete, tenha se evaporado no tempo, levando com ela o belo mural de Marian Rabello.
Os olhos escuros, miúdos e fundos de Tatá estariam a olhar, com ceticismo e espanto, a cidade em que nos reunimos no final dos anos 60, como estrangeiros que se encontram em um porto. Ele vindo do Sul do Estado e eu, do Norte.
Vitória estaria brilhando sob o sol desse céu sempre azul. A praça Costa Pereira, ali perto, cheia de barraquinhas de quinquilharias entre as soberbas palmeiras que ninguém quase nota, uma parafernália de ambulantes a atacar transeuntes e um mar de metal de automóveis se apertando nas curvas estreitas da praça, enquanto a multidão suada prossegue em sua desordenada e destrambelhada corrida, ninguém sabe muito bem para onde.
Fernando Tatagiba
Fernando Tatagiba Crédito: Arquivo
Tatagiba estaria com um copo de caldo de cana em uma das mãos, um pastel de caranguejo na outra, a fitar com nostalgia a cúpula enfumaçada do Glória. O encontro seria para falar de cinema. Que era um assunto comum a nós dois, desde o dia em que nos conhecemos. Isso foi no Festival de Cinema Amador Capixaba, no Jandaia, em dezembro de 67, onde estavam os chamados “jovens rebeldes” da ilha.
Eu era apenas uma recém-chegada, voltando de uma temporada no interior. desconhecida e tímida. Mas trazia orgulhosamente minha iniciação de cinema, que se deu quando ainda balbuciava e era carregada para a sala de projeção de meu avô, o dono do único cineteatro de Conceição da Barra, onde, sentada no colo de minha mãe ou das tias, comecei a ver as imagens em branco-e- preto, na luz.
Do meu currículo constavam frequências ao Trianon, em Jucutuquara, e ao cine Capixaba. Trazia também, na bagagem, a frequência das matinês, na Capital, pela década de cinquenta. Tais matinês, aos domingos, eram seguidas de tardes com milkshake e pasteizinhos de leite, na Pinguim, da Jerônimo Monteiro.
Naquela época, tive o deslumbramento de ver "Shane, os brutos também amam", e me apaixonar por Alan Ladd, o caubói solitário, no Glória. Ainda tive o luxo de assistir a Elizabeth Taylor e Van Johnson em "A última vez que vi Paris", no Carlos Gomes, e à sessão inaugural do belo São Luís. O filme foi "Carnaval no Fogo", "Aviso aos Navegantes" ou "Carnaval Atlântida", não me lembro bem, todos tinham o mesmo jeito escrachado de music-hall... (Continua daqui a 15 dias).

Bernadette Lyra

E escritora de ficcao e professora de cinema. Escreve as tercas-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporaneos

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