Reza a lenda que à beira do rio existia a venda do velho João. Um simples balcão de madeira onde o fumo de coxa se enroscava entre samburás, missangas, chitas e coisas amontoadas, ano após ano. Um dia, João quis visitar Portugal, a terrinha de onde veio. Entregou a venda a um sócio bem-falante e partiu em viagem por cima do mar.
Acabado o dinheiro, João retornou, já pensando em juntar novamente os mil réis. Mas, da entrada da barra do rio, o que ele viu o deixou perturbado. Junto à humilde casinha da venda, erguia-se uma construção que lhe pareceu gigantesca. Era o fruto da metamorfose do patrimônio da firma, transformado em Sobrado pela astúcia do sócio. Não sei se acabou bem ou mal entre os dois.
O certo é que o Sobrado viveu uma história. Foi motivo de brigas, ódio, amores, disputas; transmudou-se em trapiche, serviu de abrigo a maçons, transformou-se em casa de bilhar. Afinal, foi entregue pelo município, como saldo de dívida, a um senhor português de hábitos elegantes, que o transformou em seu lar e nele fez morada.
Assim foi que o casarão junto ao espelho do rio ganhou um certo ar de nobreza que emanava dos novos proprietários. Da cozinha vinha um cheiro de assados e bolos; móveis distintos espalhavam-se pelos cômodos; retratos se agrupavam pelas paredes; uma sala era lotada de instrumentos musicais, entre eles o piano, tocado pela moça, filha dos donos da casa.
O pátio, onde antes castanheiras e tamarineiros selvagens se agrupavam, transformou-se em pomar. Rosas brilhavam entre pés de laranja e guirlandas de trepadeiras floridas despencavam dos muros. Do terraço avistava-se o oceano, o farol, o areal, a Bugia, a cidadezinha estendida. No telhado, avultava-se o nome Conceição da Barra, em letras enormes.
O Sobrado atravessou tempos de risos e esperanças. De repente, porém, estalou a tragédia. A Morte, com seu rastro impiedoso, roubou o alento do velho caudilho e de sua mulher. Assassinaram seu filho, seu querido rapaz. O casal alquebrado, já de cabeças branqueadas, afastou-se dali, ao casar a filha.
O Sobrado provou do abandono. Tempestades descascaram as paredes. O terral estragou o telhado. O caruncho atacou a bela escada de madeira que unia os dois andares, destruiu os portais.
Esporadicamente foi alugado: hotéis, Petrobras, Companhia de Pesca, um remoinho vulgar que, apesar de muitos estragos, não conseguiu destruir a aura de guardião da cidade.
E hoje ele lá permanece à espera de que lhe sejam prestados o justo reconhecimento e a prometida reparação. O Sobrado, a briosa ruína que merece o cuidado, o carinho e o respeito de toda nossa gente.