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Bernadette Lyra

À espera da restauração do Sobrado, símbolo cultural de Conceição da Barra

O certo é que o Sobrado viveu uma história. Foi motivo de brigas, ódio, amores, disputas; transmudou-se em trapiche, serviu de abrigo a maçons, transformou-se em casa de bilhar

Publicado em 05 de Maio de 2026 às 02:30

Públicado em 

05 mai 2026 às 02:30
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra


Reza a lenda que à beira do rio existia a venda do velho João. Um simples balcão de madeira onde o fumo de coxa se enroscava entre samburás, missangas, chitas e coisas amontoadas, ano após ano. Um dia, João quis visitar Portugal, a terrinha de onde veio. Entregou a venda a um sócio bem-falante e partiu em viagem por cima do mar. 


Acabado o dinheiro, João retornou, já pensando em juntar novamente os mil réis. Mas, da entrada da barra do rio, o que ele viu o deixou perturbado. Junto à humilde casinha da venda, erguia-se uma construção que lhe pareceu gigantesca. Era o fruto da metamorfose do patrimônio da firma, transformado em Sobrado pela astúcia do sócio. Não sei se acabou bem ou mal entre os dois. 

Conceição da Barra
Conceição da Barra Douglas Altoé Zampirolli/Arquivo

O certo é que o Sobrado viveu uma história. Foi motivo de brigas, ódio, amores, disputas; transmudou-se em trapiche, serviu de abrigo a maçons, transformou-se em casa de bilhar.  Afinal, foi entregue pelo município, como saldo de dívida, a um senhor português de hábitos elegantes, que o transformou em seu lar e nele fez morada.


Assim foi que o casarão junto ao espelho do rio ganhou um certo ar de nobreza que emanava dos novos proprietários. Da cozinha vinha um cheiro de assados e bolos; móveis distintos espalhavam-se pelos cômodos; retratos se agrupavam pelas paredes; uma sala era lotada de instrumentos musicais, entre eles o piano, tocado pela moça, filha dos donos da casa. 


O pátio, onde antes castanheiras e tamarineiros selvagens se agrupavam, transformou-se em pomar. Rosas brilhavam entre pés de laranja e guirlandas de trepadeiras floridas despencavam dos muros. Do terraço avistava-se o oceano, o farol, o areal, a Bugia, a cidadezinha estendida. No telhado, avultava-se o nome Conceição da Barra, em letras enormes. 


O Sobrado atravessou tempos de risos e esperanças. De repente, porém, estalou a tragédia. A Morte, com seu rastro impiedoso, roubou o alento do velho caudilho e de sua mulher. Assassinaram seu filho, seu querido rapaz. O casal alquebrado, já de cabeças branqueadas, afastou-se dali, ao casar a filha. 

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O Sobrado provou do abandono. Tempestades descascaram as paredes. O terral estragou o telhado. O caruncho atacou a bela escada de madeira que unia os dois andares, destruiu os portais. 


Esporadicamente foi alugado: hotéis, Petrobras, Companhia de Pesca, um remoinho vulgar que, apesar de muitos estragos, não conseguiu destruir a aura de guardião da cidade. 


E hoje ele lá permanece à espera de que lhe sejam prestados o justo reconhecimento e a prometida reparação. O Sobrado, a briosa ruína que merece o cuidado, o carinho e o respeito de toda nossa gente. 

Bernadette Lyra

E escritora de ficcao e professora de cinema. Escreve as tercas-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporaneos

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