A proximidade do Dia das Mães ouriça os sentimentos humanos e alerta o instinto comercial do mercado. É aquela história de “desdobrar fibra por fibra o coração” em consonância com o “dar um presente para sua Rainha”. Tudo bem que as mães merecem essa duplicidade festiva, que nasceu lá pela década de 1910, nos Estados Unidos, quando a filha da ativista Ann Jarvis resolveu instaurar uma data para homenagear sua mãe falecida. Mas não custa lembrar que as mães não constituem uma única massa igual e uniforme.
O fato de parir não é motivo para que a palavra seja usada apenas por aquelas que dão à luz os bruguelos e garantem a continuidade das mais diversas proles viventes sobre nosso planeta. Existem mães de todo tipo, com direito a diferentes formatos e modalidades.
Haja vista as chamadas “mães de coração “, que nem sempre são mulheres, pois homens também podem exercer o papel de maternidade das crias. Sem esquecer que atualmente existem também as mães de bebês “reborn”, termo que se traduz como “renascidos”.
São simulações perfeitas de crianças de carne e osso. Há quem diga que tudo começou com uma boneca inventada para suprir a falta de brinquedos, com a derrocada das fábricas especializadas, após a Segunda Guerra Mundial. Com os avanços das tecnologias, as bonecas foram passando por remodelações, ficando cada vez mais fieis ao gênero, à cor da pele, aos olhos, ao cabelo e até ao peso das crianças humanas.
No século XXI, a onda reborn avançou como um tsunami sobre a vida da maternidade real, que passou a ser chata diante da nova e atraente perspectiva que inclui ausência de choros, de brotoejas, de fraldas borradas, de doenças infantis, de engasgos com mamadeiras, de noites insones, e de tantas outras coisas a que estão sujeitas as mães de bebês de verdade.
E tais benesses prometem se estender para o futuro, uma vez que tudo que até pouco tempo era ficção hoje faz parte do cotidiano. Neste momento mesmo, enquanto vocês leem estas linhas, há centenas de mães de bebês reborn dando banho, passando talquinho, pondo fraldas e vestindo seus “filhotes” feitos de vinil e de silicone macio.
As mamães de bebês e crianças reborn organizam cerimônias de batizado e festinhas de aniversário; fazem compra de roupinhas adequadas a cada estação; enchem seus pequeninos de beijos, mimos e carinhos. Mas choram, se afligem e se preocupam que alguma coisa de mal aconteça com eles. E quem somos nós, pobres criaturas apanhadas na roda inexorável do tempo, para contestar a enormidade da força do instinto materno, por mais estranho que ele pareça ou qualquer que ele seja?