Quando abro a janela e vejo em torno a paisagem, meus olhos recaem sobre a fachada castigada do velho Convento de São Francisco com seus três sinos e as volutas que a adornam, destoando das linhas retas de suas paredes primordiais. Deslizando o olhar vejo a varanda, que também destoa da construção original, e vejo o jardim em declive, onde um pé de flamboyant se ergue em toda majestade sobre o gramado cercado de muretas ancestrais.
Em uma dessas muretas foi que, um dia, avistei um ser humano sentado. E ele não estava sozinho, trazia consigo um violão de pele amadeirada e arrancava das cordas do instrumento uma melodia imersa em uma melancolia profunda. Pode ser que eu estivesse enganada, mas, com surpresa, meu modesto conhecimento musical pensou ter identificado alguns arpejos que abrem o segundo movimento do “Concerto de Aranjuez”, de que tanto gosto e tanta quietude e tanto bem me faz à alma.
A cena me pareceu surreal. Na rua, em torno, as pessoas iam e vinham em suas andanças diversas. No topo da cruz sobre o frontispício do velho mosteiro, um bem-te-vi esmerava seu grito e, nas escadinhas da varanda aberta em cinco arcos, alguns pombos catavam as migalhas deixadas pelos moradores de rua que fazem dali o dormitório em que se estendem, à noite, sobre placas de papelão e cobertores gastos.
E naquele cenário comum, a presença daquele ser tocando violão com tanta plangência me pareceu um sonho estranho como esses sonhos acordados que acometem quem se dedica a inventar coisas que as pessoas racionais consideram derivadas de quem vive no mundo da imaginação.
Depois, identifiquei o nome do violonista. Era Elias Belmiro. Tinha tido uma carreira iluminada pela musa Euterpe. Seu talento foi admirado por todos os lugares por onde passou. Brilhou nos palcos. Mas foi arrastado em uma dessas torrentes cruéis com que a vida e as circunstâncias arrastam tantos humanos.
Soube que viveu sete anos nas ruas da cidade, sem pouso nem repouso, dormindo em um banco na praça, sob a dependência insana do álcool. Um dia, aceitou ajuda de alguém misericordiosamente inclinado a ajudá-lo a escapar do vício. Internou-se, reabilitou-se, voltou a encantar quem ouvia sua música.
A história de Elias poderia acabar com um final feliz, dessa forma. Mas os finais de histórias são imprevisíveis. Como os finais da vida. O músico retornou ao alcoolismo. Um ano depois pedia dinheiro nas ruas. E, neste julho de tristes notícias, foi encontrado morto em uma calçada. Na madrugada, seu inquieto coração de artista, enfim, descansou.