Em um certo 12 de fevereiro do ano de 1984, o mundo teve notícia da morte de Júlio Cortázar, o criador dos cronópios - esses seres tontos, feitos de poesia, que cantam como as cigarras e quando cantam se esquecem de tudo. Nesse mês, sempre me vem uma sensação de luto e a vontade de falar sobre ele.
Mas o que dizer que ainda não tenha sido dito por críticos, estudiosos, acadêmicos, comentadores, revisionistas, novidadeiros, detratores ou apaixonados? Que era mestre da fantasia, autor sem igual, criador de inusitados romances, contista privilegiado, poeta ousado, enfim, dono de uma literatura fantástica, engajada e espantosamente diversificada, qualquer um desses epítetos com que se costuma rotulá-lo?
Ou que está ultrapassado, que foi um escritor menor no realismo mágico, que hoje só é lido por adolescentes, que perdeu a graça com o passar dos anos ou qualquer uma dessas tiradas com que alguns que se acham muito entendidos em literatura (aqueles que o uruguaio Juan Carlos Onetti, apropriadamente, chamou de “múmias infinitas”) insistem em achacá-lo?
Deixando de lado esse maniqueísmo perverso, prefiro falar que Cortázar amava a América Latina e que escreveu quilos de letras sobre esta nossa porção dos continentes que, a partir dos anos setenta, começava a incomodar. Ele mesmo disse, em uma entrevista: “Sinto-me em casa em qualquer país da América Latina”. E ele disse também: “Sou essencialmente um animal literário”.
Quem faz literatura sabe que ser um animal literário é estar sujeito a caprichos dos modismos e do tempo. A literatura é um negócio de risco. Mas não importa. Escrever literariamente é necessário, é incoercível, é preciso. Existem romancistas, contistas e poetas que estão pouco se lixando para os circuitos de promoção da moda. Alguns até mesmo vivem na penumbra, escrevem na solidão, dão bom dia com humor ao ostracismo. Sabem bem ainda, com uma sabedoria paciente e infinita, que nunca faltará alguém, em algum lugar, em alguma ocasião, para amar ou odiar, destratar ou elogiar uma história ou um poema.
Em seu conto “Las babas del Diablo”, o próprio Cortázar ensinou: “O que fica por dizer é sempre uma nuvem”. Então que assim seja. Que nada mais eu diga sobre esse escritor genial. A não ser que nem todos os comentários, nem todos os louvores, nem todos os ataques do revisionismo, nem todas as críticas eruditas ou pseudo-eruditas, nem todos os ódios, nem todas as invejas, nem todas as paixões que o rodeiam e rodeiam suas obras dão conta do mistério e da graça que emanam para sempre de suas palavras escritas.