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Crônica

Escrever literatura é preciso

O caso é que descobri que “escrever” já não tem o mesmo significado de antes, quando havia toda uma narrativa literária construída sobre a figura de quem escrevia

Públicado em 

31 jan 2023 às 00:20
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

Não é de agora que alguém me pergunta: por que você escreve? Sempre fiquei confusa diante dessa questão. Já dei respostas as mais variadas. Algumas singelas; outras caprichadas; outras ainda, esdrúxulas. Houve um tempo em que eu mesma me perguntava sobre isso. Agora, com a chegada de dias mais lentos, como esses que trazem o tempo vivido, deixei de tentar. Estou com a rispidez um tanto exasperada do poeta Leminski: "Escrevo. E pronto... Tem que ter por quê?”
O caso é que descobri que “escrever” já não tem o mesmo significado de antes, quando havia toda uma narrativa literária construída sobre a figura de quem escrevia. Ou seja, hoje, o epíteto “escritor literário” está reservado a seres que foram paulatinamente sendo soterrados pela enxurrada de outros “escritores”, que assim se consideram e se autodenominam aos montões.
São centenas de autores que, na maioria das vezes, flutuam na moda da ocasião, se aproveitam de temas polêmicos circulantes e nada têm a acrescentar aos leitores. O resultado são livros que brotam como cogumelos na chuva, frutos da vaidade pessoal de alguns somada à avidez do mercado.
Sem falar nessa enxurrada de editoras e de mídias, que só faz aumentar. Basta ver nas redes sociais a quantidade de chamadas e ofertas de publicação, quase sempre mediante uma certa quantia. Isso me lembra uma fala profética de José J.Veiga, na Biblioteca Mario de Andrade, em 1995, em São Paulo: “Olhem bem para mim, prestem bem atenção em minha fisionomia, em meu tom de voz: eu sou uma espécie em extinção – um escritor”.
A esse respeito, alguns estudiosos falam em declínio de qualidade na produção literária atual; outros, até em “morte da literatura”. De toda forma, as causas dessas sentenças fatais não são tão facilmente evidentes. Vão do fato de que, hoje, tudo vira mercadoria às facilidades tecnológicas de produção. E há toda uma questão histórica que engloba a transformação de instituições universitárias e a inclusão teórica da literatura como mera prática social, sem privilégio de merecimento a estudos em especial como quer, por exemplo, o movimento conhecido como materialismo cultural. Há também tantos outros motivos que não cabem nesta modesta e atordoada tergiversação.
Ao mesmo tempo, lado a lado com esse furacão destruidor, a literatura permanece bem viva como destino e modo humano de ser, sem demarcação de sexo ou de idade, na teimosia de algumas criaturas que insistem em criar, em dar vida à imaginação, em inventar histórias, em lutar com as palavras, em viver a paixão de escrever, ainda que seja apenas porque escrever é preciso.

Bernadette Lyra

É escritora de ficção e professora de cinema. Escreve às terças-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporâneos

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