Que o universo inteiro se move e que tudo no universo está em movimento, regrado por algum tipo de força, é matéria conhecida por todos. Ou pelo menos por quem tem acesso a certos programas de canais de tevê, em que se assiste à indústria do entretenimento espacial de hoje esmiuçar desde o mais escondido dos buracos negros até a mínima estrela de galáxias perdidas nas brumas.
Assim é que entre tantas “novidades” desvendadas, o público leigo toma conhecimento de que a Terra é descalibrada na ronda em torno de seu próprio eixo: ora gira mais rápido, como um pião desvairado; ora amolece o giro, esticando as noites e os dias.
Pode parecer maluquice desta escriba, nem sempre telúrica, que vive às voltas com invencionices, mas me parece que esse modular inconstante influencia os cérebros humanos. Talvez essa influência seja apenas uma coincidência com a força do hábito (que faz e desfaz coisas belas, como canta Caetano a respeito da força da grana). Ou talvez seja mesmo a infinita corrente que une tudo no Cosmos. Não posso afirmar. É, porém, um bom tema para uma ficção científica.
Aí vai o roteiro: no momento do chamado Réveillon, na troca do mês de dezembro pelo mês de janeiro, a Terra acelera sua rotação. Como consequência, os seres humanos ficam eufóricos, fazem promessas que nunca cumprirão, enviam votos de felicidades, trocam beijos, abraços, até mesmo com desconhecidos com quem nunca trocariam um simples bom dia.
A palavra mais usada na ocasião é “esperança”, que é bonitinha, porém ordinária (não por acaso está sendo citado Nelson Rodrigues, um desesperançado de marca maior). Uma multidão de boas almas acredita piamente que a fadinha verde vai pular de repente, toda serelepe, do fundo da caixa da bela Pandora, onde há séculos foi presa e esquecida.
“Tudo vai mudar a partir de agora, tenho esperanças”, repetem alguns personagens, convictos de sua condição de oráculos. “Não precisa parvamente acreditar que, por decreto da esperança, a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações”, adverte Carlos Drummond de Andrade, o poeta que não se chama Raimundo, mas sabe das coisas do mundo.
E, graças aos deuses, existem os céticos. Esses ruminam na solidão da intimidade. Eles pensam que, a essa altura, a esperança já perdeu suas asas, tadinha, e só a muito custo ainda se arrasta. Ao final da história, envergonhada e sujinha, a esperança é pisoteada sob as sandálias da multidão estulta que baila, canta e grita, sem se dar conta de que está a um passo da beira do abismo.