O ano de centenário da Semana de Arte Moderna está se esgotando. Foi um verdadeiro pot-pourri de homenagens, comentários, eventos e tudo o mais que se fez para lembrar aquele episódio barulhento, cheio de prós e contras, nascido em São Paulo, há priscas eras, e tido como um surto que rasgou o estatuto antigo das artes e abriu uma fenda para a introdução da modernidade na cultura de nosso país.
Mas, afinal, o que é essa tal de modernidade, de que tanto se fala? Pra começo de conversa, não é uma palavra fácil de ser explicada. Tem tons nebulosos, desliza a cada vez que alguém tenta desvendá-la. E vem de muito longe, desde os tempos do iluminismo (outra palavrinha complicada) sempre tangida e tingida pelas mudanças sociais et caterva.
Daí que uma coisa é consenso nas melhores famílias do pensamento humano, de Bergson a Bauman (só para ficar na listagem do B): a mudança é o motor que move as engrenagens da existência das civilizações. E a modernidade pode ser creditada a mudanças que, em algum período da História, abalaram a política, a monarquia, a religião e o aparato jurídico-institucional no Ocidente.
Hoje, basta dar atenção ao que acontece no dia a dia do mundo para sentir que estamos em plena era das mudanças tecnológicas, cada vez mais ousadas e usadas. E assim vai. A modernidade tecnológica progressiva corrói costumes e usos, modifica sociedades e formas de comunicação. Não dá para pisar no breque, como se dizia em tempos de antanho, nem voltar a roda dos dias para algo que já se foi e não tem mais lugar, a não ser nas ilusões de alguns deslumbrados com o falso brilho lunar de fantasmas de um passado que nem mesmo existiu da maneira como é rememorado pelos saudosistas. “Não se é banhado duas vezes pelo mesmo rio”, já dizia Heráclito, o filósofo grego. “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia, " cantava Lulu Santos, dando uma de Heráclito tupiniquim.
O perturbador universo de experiências em ebulição requer desvestimento de roupagens, ações, crenças, discursos, ídolos e “otras cositas mas”, que parecem ainda fazer doces acenos a nossa pobre esperança de que os raios fúlgidos do passado vão iluminar trilhas de salvamento, no país e no mundo.
Dessa forma, quer a gente queira ou não, tudo muda a cada instante e nem adianta esperar que tudo se repita tal como a gente pensa ou acha que o que já passou antes foi. Como se o que já passou fosse o Santo Graal que resolveria os problemas que agora assolam as criaturas, as comunidades e as nações desse nosso planeta, outrora dito tranquilo e azul