De repente, eu começo a entender crônicas perdidas (e agora achadas). Encontrei muitas que fiz repousadas em um velho computador. De uma delas catei essa minha frase inicial, e dela agora faço motivo, diante de um antigo texto que fiz para falar de crônicas nunca publicadas de Cecília Meireles, que alguém recitava em um programa de televisão, pois, em sua simplicidade, elas já deixam entrever a amarga beleza, cada vez mais depurada, que a poeta doaria às palavras, a partir de uma existência que levava, sem charme e sem graça.
As tais crônicas foram escritas há muito tempo, quando Cecília vivia no quase anonimato, casada, criando três filhas, suportando um marido bipolar com crises de comportamento e depressão que o levaram até o suicídio.
Imagino Cecília com lágrimas de cortar cebola nos olhos ou a passar o bife, com as mãos respingadas de gordura e azeite. Imagino-a preocupada porque o pó do café acabou ou apavorada porque uma barata surgiu na cozinha. Imagino-a, enfim, como uma dona de casa qualquer.
Nas horas vagas, que eram poucas, talvez de madrugada enquanto o marido roncava na cama, imagino Cecília sentada naquela maquininha de escrever, quase minúscula que o programa de televisão exibiu. Imagino-a arrancando das teclas o sumo de sua própria alma, cobrindo o papel com as dores prosaicas de seu dia-a-dia transfigurando-as em fieiras de letras impressas sobre o papel
Quem sabe nesses momentos os vizinhos não a considerassem uma insuportável e chata perturbadora do silêncio e do sono? Quem sabe o verdureiro, na manhã seguinte, não fosse o único a perceber-lhe a insônia estampada no rosto?
Vou até a estante, pego a coletânea de poemas. Abro a esmo. E leio o que ela mesma me diz, com a mais transparente clareza: Aqui está minha vida. Esta areia tão clara com desenhos de andar, dedicados ao vento.
Como tantas mulheres comuns, onde mais a divina Cecília exercitaria aquele agudo sentimento do mundo, delicadamente contido, senão na condição de doméstica, de esposa e de mãe de família que é obrigada a esconder e a guardar em si mesma os seus mais secretos e alados desejos? Onde mais ela afiaria aquela inimitável voz, doce e polida, senão naquelas corriqueiras, femininas e repetidas tarefas caseiras que, malgrado seu, tinha de executar?