Entre as bizarrices que inundam as redes sociais, leio uma recomendação de alguém: “leiam escritoras vivas”. Fiquei em dúvida: o que isso quer dizer? Que escritoras mortas já eram e seus livros não mais interessam? Ou será que foi esquecimento da palavrinha “também”?
Bem, talvez essa recomendação seja apenas um excesso de zelo da “patrulha ideológica” da literatura. Nesse sentido, sempre haverá “vigilantes literários”, seja nas mídias especializadas, seja nas sociedades acadêmicas, seja nas escolas e nas universidades. Gente que se acha muito ciente de si e de sua alta competência na tarefa de patrulhar o que deve ou não deve ser lido, visto ou ouvido.
Segundo o escritor Roberto Causo: “Alguém sempre escolhe, e esse alguém, que muitas vezes se apresenta como autoridade em razão de formação, bom gosto ou posição de destaque nos meios de comunicação ou aparelhos culturais, não está distante de empregar no campo da política literária, os mesmos recursos baixos utilizados na política partidária ou ideológica”.
Na realidade atual, não raro esses vigilantes literários se entrincheiram em uma pretensa defesa de qualquer sistema dedicado a minorias culturais expressivas. Não há como negar que as mulheres que escrevem fazem parte histórica das minorias. No entanto vai uma longa, injusta e nem sempre bem explicada distância dessa pretensão até o esquecimento de que os mecanismos de evolução literária não nascem do nada, mas dependem de uma sucessiva cadeia de elos que lembram o passado para que, no futuro, sejam lembrados.
As mulheres sempre escreveram. O diálogo atemporal com textos escritos por elas é essencial. A dificuldade está em que a história literária seguiu a trilha masculina e não a feminina. Alguém que se dedique a investigar a experiência de vida de tantas mulheres comuns, divididas entre as tarefas caseiras e a criação com as palavras escritas, talvez consiga entender por que tão poucas foram consideradas incomuns na profissão de escritoras.
Um projeto recente divulgou fotos de mulheres, cada qual com um livro de sua autoria em punho, comprovando que elas são tantas quantas são as formigas e as abelhas operárias. Se é certo que a existência de tantas que agora vivem, escrevem e publicam - graças às deusas das circunstâncias e às facilidades das mudanças - não garante um ajustamento estético original à escrita, nem um entendimento dos processos que ora agitam a humanidade, também é certo que a quantidade delas não justifica o apagamento daquelas que já morreram, perdidas na irreversível espuma do tempo.