Os fenômenos culturais de agora parecem estar cada vez mais repetitivos, ou seja, em matéria de cultura, parece que o mundo está estacionado. Basta ver, por exemplo, as coisas mais simples e mais corriqueiras, como novelas e realities shows na TV ou séries na Netiflix e congêneres.
Quase todas essas manifestações se aproveitam das mesmas ideias ou exploram as mesmas tramas e as mesmas ações, mudando apenas de cenário ou adaptando personagens. Os mais chegados ao formalismo e ao estruturalismo dirão que todas as narrativas se parecem em suas estruturas, que guardam um repertório comum de intrigas, funções e visões. Com o maior respeito por Tzvetan Todorov, isso não impede a deriva para considerar que existem outras razões mais além.
Em primeiro lugar, é certo que o capitalismo tem sua parcela de culpa nessa chatice repetitiva. Os pesos pesados corporativos não abrem mão do lucro fácil. Assim se torna mais produtivo investir naquilo que já se mostrou rentável de que apostar nas inovações. Porém não só esse aspecto pode ser considerado. Basta pensar na enxurrada de produtos que, há algum tempo, foram já tidos como específicos de um certo tipo de arte e, hoje, saltitam alegremente no campo da banalização.
Vocês conhecem a perspectiva do velho, bom e nem sempre bem compreendido Marx: o desejo de status, de conquistar uma certa posição social e consequentemente gozar os privilégios que dela fazem parte, movimenta a evolução cultural. Talvez isso seja importante para explicar o excesso indiscriminado de gente desejosa de atuar em alguma forma de produção artística, como a fílmica ou a literária, por exemplo. Talvez isso sempre tenha ocorrido no decorrer da História. No entanto é preciso considerar que as tecnologias atuais favorecem, em muito, essa excessividade banal.
Não dá para fugir às mudanças. A internet promove uma espécie de esquecimento do que antes era condição para que alguém fosse considerado “culto” ou “artista”. Ninguém mais precisa investir laboriosamente na aquisição de conhecimentos. Ninguém mais necessita ser capaz de uma criação que se destaque entre outras institucionalizadas. Para isso, existem sites de busca instantânea, facilidades tecnológicas de publicação, de oficinas de fabricação em massa e modos de promoção nas redes.
Se, por um lado, isso é bom para democratizar e tornar mais igual o modo distintivo de status, por outro contribui para o mal-estar que embaralha as certezas do que pode a cultura aguardar no futuro. Se futuro houver sobre o planeta.