As redes sociais vêm sendo um portfolio de felicidades. Muita gente faz pose, se desdobra em gestos e sorrisos, para postar nas telinhas. É como se a felicidade fosse uma obrigação, quando não um trunfo a ser exibido, sabe-se lá por que neura ou desejo de afirmação.
Tudo bem que essa é a marca dos tempos em que vivemos. Não postar no facebook, instagram, tik tok e congêneres virou sinônimo de desaparecimento. Cabem aqui as palavras do filósofo Nietzsche: “Por falta de repouso nossa civilização caminha para uma nova barbárie”.
Por vezes, essa coisa de exibição chega às raias do absurdo. Seria cômico, se não fosse trágico e até infeliz. É o caso das imagens da primeira-dama da Ucrânia, Olena Zelenska, feitas pela famosa Annie Leibovitz e postadas no instagram da revista americana Vogue. A revista é frequentemente ilustrada por modelos, atrizes, socialites e milionárias. E a bela não está sozinha na empreitada fotográfica chiquérrima. Faz-se acompanhar de seu marido, o presidente Volodymyr Zelenski. Inclusive uma dessas fotografias foi tomada no palácio governamental, em Kiev.
"Um retrato de coragem" é o rótulo midiático com que a revista achou por bem titular a matéria. É de crer que a coragem é mesmo uma virtude singularmente estranha. Em uma das fotos, aquela bela senhora, envolta em um mantô cinza escuro, desenhado por um costureiro famoso, pisa em sangue, literalmente.
E o cenário em torno dela é desolador, coberto de restos, destroços, carcaças de aviões e soldados armados até os dentes. Em outras fotografias, o casal ri, se abraça, faz cara de astro e estrela de cinema, ambos cobertos por roupas elegantes, blusas de seda e glamour. E quando o instagram da Vogue mostra a cena gravada no set, é possível escutar uma música, suave e romântica, como a trilha de um filme hollywoodiano.
Quanto é triste constatar a insensatez da dupla governamental ucraniana! Parece deboche, pois pelo que se vê nas mídias atuais, o que vigora na região é o medo e o desespero de homens, mulheres e crianças. Gente assustada, ferida, arrastada para longe de casa, atirada em um exílio que nunca desejou. Por mais que alguns justifiquem nessas fotos a necessidade de chamar atenção para o conflito na Ucrânia, o pior é o desrespeito por tantas vidas brutalmente perdidas, tantas lágrimas derramadas, tantas dores sem solução.
A guerra não assenta com um ensaio de moda. Não é um salão de baile. Não é nada que convide à ostentação e à alegria. A guerra é o mais desesperante horror da humanidade, materializado em pedaços sangrentos de corpos e estilhaços de almas.