Ultimamente, venho pensando quanto eu gosto de crônicas. Penso que é porque, além de ser um texto curto, tem uma vida curta. As coisas efêmeras me dão um certo encantamento. Estão aí para lembrar a gente de que tudo na vida é passageiro; tudo vale pelo instante em que toca o cérebro e o coração, depois logo é substituído.
O termo crônica vem de Chronos, aquele velho deus mitológico do Tempo. Ele devorava os próprios filhotes tenros, com medo de que eles lhe tomassem o trono. Cronistas são filhotes de Chronos que escaparam da devoração, mas que, por sua vez, devoram qualquer matéria que lhes apareça à mesa. Assim, antes de tudo, o cronista é um canibal. Mas ser canibal exige um certo requinte. Não pensem que basta cair de boca no assunto.
Em primeiro lugar, a dieta de um cronista é feita de fait divers, ou seja, dos fatos corriqueiros de cada dia. É bom que a comida seja fresca e lá venha pulando, como queriam os aimorés, os botocudos e outros povos originários que amavam comer portugueses colonizadores, de carne mais gorda que a carne das antas.
O motivo de uma crônica requer o tempero da atualidade, para não ser apenas fatias de elucubrações ou ensopados de rememorações que o cronista regurgita amorosamente na garganta dos leitores, como faz um pássaro a alimentar seus vorazes filhotes. Sim, porque os leitores contam, na hora de escrever uma crônica. Contam tanto que cronistas não podem passar sem dar a suas crônicas o ar de um “olhar de aceno para o lado”, como diz o cronista capixaba Jace Theodoro, ou de uma palavrinha ao pé do ouvido, uma tertúlia amável com aqueles que hipoteticamente vão ler o que está sendo escrito. Lembro Machado de Assis que chegava a dizer que fazia suas crônicas como “regras para aqueles que frequentam os bondes”. Não existem mais bondes, mas existe aquilo que, a respeito da crônica, o teórico Antônio Cândido chama de “uma conversa aparentemente banal”.
Às vezes essa “conversa aparentemente banal” toma uma direção. E o cronista desanda a falar especialmente para alguém, embora nem sempre mencione seu alvo. É a malícia da crônica. A pessoa vai lá e lê, inocentemente, sem adivinhar que aquela parolagem toda se dirige a uma determinada criatura. É nesse momento que o cronista se aproxima mais da literatura de que do jornalismo, duas variedades que apetecem à uma crônica. Penso mesmo que nessa capacidade de drible é que a crônica é mais literária. Mais literária ainda que quando resvala na linguagem poética, tendo em vista que a literatura é o modo mais encantador de enganar e mentir.