Vivemos em um tempo em que até mesmo a linguagem se vê metida em um disse-me-disse de opiniões esquisitas, por vezes bizarras e estapafúrdias. É o caso do quiproquó em torno dos termos “velhice” e “terceira idade”, aplicados àquela fase da vida que, se ainda não chegou, um dia chegará (para quem estiver vivo até lá).
Algumas pessoas não desistem de serem chamadas de “velhas e velhos”; outras preferem “idosa e idoso”; outras ainda exigem que se aplique a divisão ordinal numerada das idades aos seres humanos, ou seja, primeira, segunda, terceira.
Talvez isso seja reflexo de antigos modelos sociais, agora cindidos. Até o começo do século XIX, havia um tratamento igual, sem separação de funções, para os membros de uma mesma família. Hoje, qualquer situação de ordenação social, mesmo familiar, se vê submetida a regras específicas. É a herança da tal “nova ordem mundial”, pós-Guerra Fria, caracterizada pela globalização e, sobretudo, pela consolidação do capitalismo.
Na canção “Fora da ordem”, Caetano Veloso apresenta diversas “harmonias bonitas” como contraponto para resistir às imposições dos “podres poderes” que tomaram conta do mundo no século XX e se arrastam pelo século XXI. Mas tanta predisposição de igualdade harmoniosa esbarra em alguns obstáculos. Por exemplo: como enfrentar as divisões identitárias que, por vezes, provocam distúrbios e contendas quando envolvem questões delicadas de gênero, cor, ambiente etc.?
No uso da linguagem, tais divisões sociais promovem verdadeira operação cosmética. Algumas palavras são canceladas. Outras, postas em escanteio. Ainda outras sofrem alteração semântica de rota, aí incluídas as que denominam a divisão do curso da vida. “Velha e velho” passaram a ter conotações de incapacidade física e mental. Já “idosa e idoso” dão ideia de alguém que ainda tem inserção na cadeia produtiva, e parecem camuflar as relações de fraqueza e de perdas. E tem o álacre advento de “terceira idade”, sempre colado à imagem de gente ativa e saudável, aliado aos avanços dos procedimentos estéticos, dos cuidados com o corpo e da medicina geriátrica.
“Terceira idade” cai como uma luva naquelas pessoas capazes de usufruir da “arte do bem viver”, como dizem os folhetos turísticos. E dá a entender que existe uma época em que a velhice goza de benesses (desde que haja um elevado status econômico e social). Na verdade, o termo é uma versão elegantemente traduzida daquelas denominações usadas por políticas públicas francesas. E chegou até nós, que adoramos adotar os modismos.