Lam Shuk Yee diz que o caratê ajuda em sua memória dimensional
Lam Shuk Yee diz que o caratê ajuda em sua memória dimensional. Crédito: Ricardo Medeiros

Idosos encontram nas artes marciais um suporte na luta contra o tempo

Caratê, judô e muay thai viram aliados dos praticantes em busca de harmonia, bem-estar e sabedoria na terceira idade

Tempo de leitura: 4min
Vitória
Publicado em 15/01/2023 às 18h08

Os anos passam, a idade chega e o tempo pode gerar algumas limitações que tornam certas coisas — antes simples — um pouco mais difíceis de serem realizadas. Mas, às vezes, as barreiras são apenas psicológicas, não físicas. Cada vez mais idosos têm descoberto, por exemplo, que não existe esse papo de que estão "velho demais" para praticar alguns esportes, entre eles as artes marciais.

Envelhecer é uma regra da vida, mas a forma como envelhecer é uma escolha de cada pessoa. Quem assume o desafio de quebrar os preconceitos de que esportes como o judô, caratê, jiu-jitsu e muay thai são coisas apenas de jovens acaba por descobrir um caminho para o bem-estar e um estilo de vida mais saudável.

A paixão pela luta inclusive contribui para que eles enxerguem uma forma de lidar melhor com a terceira idade. Quem sabe bem disso é a aposentada Lam Shuk Yee, de 62 anos, que viu seus reflexos e o equilíbrio melhorarem com o caratê.

Suki, como também é conhecida, procurou a arte marcial originária do Japão em 1981, quando tinha 21 anos, como uma maneira de lidar com o estresse diário. Mais de 40 anos depois, revela que enxerga na atividade física um suporte durante a fase atual da sua vida.

“Com 60 anos, a memória vai falhando e sentimos o peso da idade. Mas a gente não desiste. O karatê ajuda a termos uma memória dimensional, como encaixamos os golpes, a lateralidade dos espaços. Parece até um jogo de quebra-cabeças e faz com que tenhamos uma atitude diferente em relação à vida”, comenta a aposentada.

Lam Shuk Yee

Lam Shuk Yee

Aposentada

"Conheci um dizer de Funakoshi (desenvolvedor do estilo de karatê Shotokan): ‘partindo as nuvens, procurando o caminho’. Achei o máximo! Essa frase representa a nossa luta contínua"

Em tom descontraído, ela brinca: "Atravesso a rua e não tropeço”. A veterana encontrou na luta um reforço para o bom andamento e segurança durante as atividades do dia a dia. “Quando eu ando na rua, por exemplo, fico mais alerta e sei avaliar melhor as pessoas que estão à minha volta”, explica.

Amadurecimento ao longo dos anos

Para o professor de judô José Adelino de Sousa Mendes, de 76 anos, foi a própria "nobre arte" que o encontrou. Sua jornada nas lutas se iniciou em 1965, quando foi ao Maracãnazinho assistir ao Campeonato Mundial de Judô, no Rio de Janeiro, e descobriu a sua vocação.

O sensei — título de honra dado a instrutores e mestres — reflete sobre a mudança do seu olhar em relação à filosofia do judô no decorrer dos anos. Em um processo de amadurecimento, o que antes era uma busca por força, transformou-se em uma procura por sabedoria.

José Adelino
O sensei Adelino, de 76 anos, diz que busca sabedoria no judô. Crédito: Carlos Alberto Silva

“Busco conhecimento, não só técnico, mas harmonia entre os seres humanos, igualdade, justiça e, sobretudo, prosperidade e benefício mútuo. O judô representou as melhores possibilidades da minha vida. Hoje ele significa esperança, clareza, humildade, simplicidade e honradez”.

Ao avaliar a si mesmo após anos de treino e ensino, Adelino entende que a arte marcial ajuda a superar a diminuição da capacidade física e hormonal causada pelo tempo. Para ele, a luta contribui para que consiga manter o equilíbrio mental, orgânico e emocional do seu próprio corpo.

Além disso, o professor encoraja que pessoas idosas pratiquem lutas e se mantenham ativas com os cuidados necessários. “O profissional responsável deve fazer as devidas adaptações, respeitando a individualidade dos praticantes”, explicou.

Uma alternativa contra a solidão

Fora os ganhos de força e flexibilidade, as artes marciais também podem trazer benefícios no aspecto afetivo. Na opinião do personal trainer Mauro Guerra Júnior, devido ao seu caráter coletivo, a prática de luta pode ajudar a combater um fator comum à população idosa: a solidão.

Mauro Guerra Júnior

Mauro Guerra Júnior

Personal trainer e doutorando em aspectos neuromusculares dos atletas de MMA brasileiro

"O contexto comunitário que envolve as artes marciais apresenta uma influência importante na terceira idade, que é o afeto, visto que uma marca deste período é o isolamento"

Guerra não vê malefícios quando o assunto é a presença de pessoas mais velhas em esportes de luta. Porém, reforça a necessidade de um trabalho complementar para diminuir o risco de lesões.

“A arte marcial tem um caráter técnico. Não há, necessariamente, uma evolução considerável no aspecto físico. Para os idosos, é preciso uma atividade de força para reduzir as chances de lesão e aumentar o desempenho”, complementa o personal.

Médicos recomendam artes marciais para idosos?

Segundo a médica Gisele Lorenzoni, que é endocrinologista, metabologista e é pós-graduada em medicina esportiva, as artes marciais são uma ótima opção de atividade física para os idosos. Entre os benefícios, ela destaca o fortalecimento muscular.

“Trabalhar o equilíbrio e coordenação motora é essencial para pacientes idosos, porque eles já têm uma propensão maior a quedas. Ao longo dos anos, eles vão perdendo massa muscular e equilíbrio”, explicou a médica.

Gisele lembrou também que as artes marciais podem ser aliadas na prevenção de quedas. “Eles aprendem a cair de uma maneira correta, que é uma preocupação com pacientes idosos uma vez que eles são propensos à osteoporose”. Além disso, a médica disse que, com o tempo, a prática também leva à melhora no quadro de doenças metabólicas e cardiovasculares.

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