Alguém me pergunta se acredito que existe uma identidade capaz de marcar o modo capixaba de ser. Falar em identidade capixaba é acreditar na existência de um lugar natural, nomeado Estado do Espírito Santo, encaixado entre fronteiras políticas artificiais, ainda que sejam demarcadas por acidentes geográficos naturais: o rio Itabapoana, ao sul; o riacho Doce, ao norte; o oceano Atlântico, a leste; a serra do Caparaó, a oeste.
Mas ninguém ignora que a palavrinha “identidade” não está ligada a acidentes geográficos naturais, mas sim às ondas de calor cultural. O fenômeno da identificação cultural é que diferenciaria o capixaba de outros habitantes do país. A questão é que os laços culturais, como noções de família, de mercado de sociedade, vão se modificando com a passagem dos séculos. E a urgência de adaptação a essas mudanças se vê entre a cruz e a caldeirinha.
Hoje, a necessidade de universalização global, mesmo com todas as contradições, atinge o coração das relações humanas, ao mesmo tempo em que grupos sociais, impelidos por um vento ideológico de resistência e preservação, tentam fortalecer laços pessoais e identitários de origem.
Apanhada nesse dilema, a cultura vem sendo atravessada por transformações que desestabilizam as velhas e confortáveis certezas entre o que seria verdade e mentira, aparência e real. Basta ver o atual embate entre as forças que acham que as redes digitais devem ser postas sob determinado controle oficial e as que consideram que isso é um tipo de censura a ferir a liberdade de expressão e de escolha, garantida pelas leis de um país.
Assim sendo não e fácil responder à pergunta acima citada. O que se pode considerar é que algumas coisas desentranhadas das profundezas de nosso imaginário coletivo são eleitas como portadoras de uma espécie de codificação cultural feita dentro de nossos limites geográficos e, desse jeito, acabam se tornando figurações a serviço da “nossa identidade”, sendo sempre citadas por certos segmentos em busca de efeitos políticos, estéticos, didáticos ou patéticos.
São muitas essas figurações: panela de barro, moqueca, congo, beija-flor e outras. Algumas até são importadas pela mídia de turismo e consumo como se fossem representação autêntica e popular capixaba. Por exemplo: quem disse que o forró de Itaúnas, com aquele toque nordestino de sanfona, teve origem no norte do Espírito Santo? Bem, mas isso não importa. O que posso dizer é que somos camaleônicos e ajustamos fenômenos culturais forasteiros ao processo de transformação do nosso capixabismo. Sem perder a essência de nossa própria ternura jamais.