Certa vez, Jorge Amado afirmou que a primeira condição para alguém fazer literatura de ficção é ter nascido para isso. Eu aqui, de minha modesta, mas honesta e incansável profissão de escritora, concordo com o venerável baiano.
Tenho mania em dizer que fazer literatura de ficção é um “dom”. Ou seja, deve vir de algum lugar que não é lugar explícito nenhum e, depois, se materializa em palavras. Talvez sejam os fragmentos do desejo humano de criar, de dar forma àquela percepção sensorial e memorial da mente, que habita cada criatura em particular, surge, extrapola e ninguém, nem mesmo quem escreve um romance, um conto ou coisa que assim lhe pareça, sabe explicar de onde surgiu nem como extrapolou.
O certo é que tem gente que se incomoda com a palavrinha e, não raro, me vem com aquela velha ladainha de que “dom” é coisa que não existe.
Se não existe como é que alguém pode sentir aquela coceira na mente, que passa a ser impossível de ignorar e ocorre bem antes que a famosa “técnica literária” ou aquilo que alguns chamam de “estilo pessoal” inicie sua força, no ato físico de dar corpo à imaginação e começar a imarcescível luta com as palavras. Luta essa que o vate Drummond tão bem explicitou: “É a luta mais vã”?
O dom é uma inclinação tão incoercível quanto o uso da mão esquerda nos canhotos. Você pode nem descobrir que tem o dom para escrever ficção até que perceba que vem sentindo a necessidade de que a “informe e nebulosa meada interna “, de que fala Cortázar e que tão bem casa com aquilo que pode ser traduzido por “dom para a literatura”, se transforme materialmente em escrita.
Uma necessidade que vai muito além da prosaica (e algumas vezes vaidosa) vontade de publicar um livro, aliás, coisa que atualmente parece ter entrado na moda, com as facilidades da tecnologia e o imenso número de editoras que surgem de repente como cogumelos na chuva e se revezam na captura de prováveis (e algumas vezes incautos) poetas, contistas, romancistas ou que tais.
Longe de ser uma quimera, o dom é o que impulsiona e direciona a ação criativa, como ensinam os griots e os domas africanos, contadores orais de histórias. Na literatura escrita é mesma coisa. Você reconhece seu dom de criar literário quando vê, escuta ou vivencia alguma coisa, uma “partícula preciosa”, que toca sua memória e lhe causa um sentimento inexplicável, íntimo e pessoal.
Então, de repente, você sente um estranhamento, como Alice de Lewis Carrol, no País das Maravilhas, e aquilo se transforma na necessidade urgente de materializar-se em literatura.