Eu amo os verbos, essas criaturinhas feitas de letras, com aquele “r”, que é como um rabinho final. Quem trabalha a arte de escrever ficção sabe como são valiosos. Sobretudo porque são os estelionatários do tempo. Tomam para si o tempo. Atestam que o tempo se divide em presente, passado e futuro. Afirmam que o tempo passa.
Coisa que ninguém ignora é que o tempo não passa. Nós é que passamos por ele. Passamos através dele. Passamos porque somos criaturas dependentes de datas para marcar a duração da vida. A vida é que se sucede a si mesma. Mas os verbos são nossos aliados, podem ser conjugados e submetidos à ilusão temporal da passagem.
E a ilusão é um dispositivo a que a humanidade se agarra, com unhas e dentes. Talvez para não se desesperar. Talvez para se prender às cordas à beira do abismo, na esperança de que tudo há de ser melhor do que agora.
No entanto a esperança é uma fada cor do absinto que perde facilmente as asas. E aquilo que, na linguagem humana, chamamos “futuro” é um rosto sem olhos. Nada vemos do que ele vê. E nada nem ninguém consegue prevê-lo. Nem os mais ilustrados cientistas, nem os pesquisadores mais dedicados, nem os artistas mais criativos, nem mesmo as artimanhas da tecnologia ou as habilidades da consciência humana têm o poder de desvendar o que ainda vai ocorrer.
Tudo que conseguimos saber sobre o futuro é uma incerteza. A incerteza talvez seja a única certeza com que a humanidade possa contar em seu “eterno é” (como canta Gilberto Gil), ou seja, em seu presente.
O presente é um existir único e precioso. É o instante em que tudo gira, tudo se move. Como faz a Terra em seu eixo em roda do Sol e no acompanhamento da estrela e da galáxia em seu navegar através do universo. E, se é certo que a inevitabilidade da incerteza não nos dá garantia de profetizar o futuro, é certo também que a mudança é tarefa mais urgente do “hoje”.
A mudança de um mundo ameaçado pelo fantasma do aquecimento global, do declínio da produção de petróleo, dos desmandos feitos em nome do capital, das guerras pelo poder. Essas são as incógnitas de uma perversa equação que divide a humanidade e motiva a urgência de mudar o que somos e o que temos, para reequilibrar a harmonia das estruturas sociais, econômicas, físicas e cognitivas que sustentam o presente do mundo e nos sustentam nele.
Assim, a incerteza quanto ao futuro traz a certeza de que o planeta tem de se transformar. Que é urgente pensar, sonhar, viver e mudar o presente para dar sentido a um tempo que o verbo vir, com a graça e a trapaça dos verbos, nos diz que virá.