Na cultura ocidental, acreditamos que o ano vai de janeiro a dezembro. A cada ano novo, criamos uma narrativa ideal em que se enfileiram promessas, juras de mudanças e ótimas boas vontades. Mas, como todas as narrativas, essas não são garantidas. Vão se diluindo no avanço dos dias, até se desmancharem na espuma do tempo. E vem outro ano e a gente (pelo menos quem sobrevive ao ano em curso) insiste novamente em apostar na ilusão.
Há sempre que considerar um começo, um desdobramento e um fim em tudo. Talvez isso aconteça porque temos a necessidade de criar narrativas para garantir nosso pertencimento à espécie humana, para dar sentido a nossa existência. Mas cada narrativa que se cria é pessoal e específica. A criação é algo bastante solitário, ensina Deleuze. E o ato de criar é um “dom”, ensinam os griôs historiadores da África. Griôs são contadores de histórias respeitados em sua sabedoria ancestral. E a palavrinha “dom” quer dizer que a gente vem ao mundo com um dote natural para criar alguma determinada coisa. Ou seja, cada pessoa já nasce com um “dom”. É o que garante a força, a beleza e a plenitude das narrativas que ela consegue inventar.
O dom vem de nossa essência. Emerge do mais profundo de nossa sensibilidade. O que é preciso saber é que ele atua no ato da criação das nossas invencionices; não é o território em que se dá a invenção. Por exemplo, você pode ter o dom de fazer versos, mas a literatura é apenas o campo em que você aplica esse dom. Djavan fala isso em “Seduzir”, quando diz: “Cantar é mover o dom/ do fundo de uma paixão”.
Não só cantar, mas qualquer outra atividade que alguém faz com naturalidade, por puro sentimento, move o dom da profundidade silenciosa do ser, daquele lugar misterioso em que habita. Também é preciso saber que o dom nada tem a ver com os objetivos culturais, sociais, econômicos, políticos de qualquer humana criação. Ele os antecede.
Você pode ter nascido com o dom para muitas atividades: ensinar, cuidar de dinheiro, cozinhar, fazer bolo, tocar violino, dirigir um filme, compor uma música, fazer versos, escrever ficção etc. As pessoas podem não ter o mesmo dom que você. O que não quer dizer que não possam desenvolver essas mesmas tarefas. A diferença é que fazem isso com muito treinamento, muito esforço, muita aprendizagem.
Porque o dom é intrínseco. Não se confunde com aquilo que se pode chamar de talento. O talento tem a ver com a capacidade e com a inteligência. O bom mesmo é quando ao dom se junta o talento. Ou seja, ao mistério do ato criativo se junta a determinação de criar.