Quem nunca ouviu John Lennon cantar “Imagine”? “...nenhum inferno sob nós, acima de nós apenas o céu” é o que estou escutando no momento mesmo em que a tevê dá notícias de que Maceió está prestes a afundar terra adentro, pelo colapso de minas de sal-gema. A ironia passa pela letra da canção, eu penso. O inferno está ali bem debaixo daquela cidade. E uma boca demoníaca horrenda se escancara sob ela.
Aqui em Vitória, o calor acende um braseiro sobre os transeuntes que caminham pelas ruas, muitos deles sem ter a menor ideia dessa tragédia, que segundo os entendidos, já se anuncia mais feroz que a de Chernobil, o acidente nuclear ocorrido na Rússia. Os transeuntes passam e o solo de nossa Ilha não treme, nem se esboroa ou racha. Parece firmemente moldado aos pés.
No entanto, não é demais pensar que o perigo que ameaça os alagoanos pode estar bem mais perto de que nossa vã ingenuidade capixaba imagina. Basta acompanhar as tratativas que se desenrolam no sentido de promover as atividades de exploração do sal-gema no Espírito Santo.
O sal-gema, resquício de um mar que se cristalizou há muitos e muitos séculos sob as areias do norte do estado, é a matéria-prima usada na fabricação de variados produtos. Representa uma fonte respeitável de renda para mineradoras, indústrias e afins. Como é de se esperar, tem muita gente de olho em promover a sua extração. Sobretudo o setor político, que, assanhado com a perspectiva do lucro eleitoral, propaga os benefícios de um hipotético desenvolvimento social e econômico da área a ser explorada.
A tal área cobre a quase totalidade do município de Conceição da Barra, aí incluída a sede, as reservas florestais e parques como o de Itaúnas. Basta olhar a repartição feita entre empresas mineradoras e o esquema de divisão das minas a serem instaladas para doer o coração.
Parece que o entusiasmo cívico que toma conta de alguns os faz esquecer que a pequena cidade de Conceição da Barra dorme e acorda apertada entre águas do Oceano Atlântico e de dois rios que a delimitam: o Cricaré, com foz na Bugia, e o Itaúnas, de foz na Guaxindiba.
Talvez, em sua delirante vontade de paladinar o progresso, alguns ignorem que a topografia urbana ali é plana, com altitude de apenas três metros acima do nível do mar. E se não houver cuidados extremos em toda essa avidez pelas gemas do sal, a cidade de “singela beleza”, como cantou o poeta meu avô Manoel Cunha, facilmente poderá ser devorada por colapsos, passíveis de ocorrer em minas como aquelas que agora devoram a gentil capital de Alagoas.