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Jornalista de A Gazeta, há mais de 10 anos acompanha a cobertura de Economia. É colunista desde 2018 e traz neste espaço informações e análises sobre a cena econômica

Um pouco de história: fábrica que Ford fechou na Bahia quase foi no ES

No final da década de 90, governo capixaba travou intensa disputa com o Estado vizinho para instalar uma planta da companhia americana no Espírito Santo, mas Bahia levou a melhor

Publicado em 12/01/2021 às 02h03
Matéria de A Gazeta de junho de 1999 traz notícia sobre a possível perda da instalação da fábrica da Ford no ES
Matéria de A Gazeta de junho de 1999 traz notícia sobre a possível perda da instalação da fábrica da Ford no ES. Crédito: A Gazeta/Reprodução

Um dos principais assuntos econômicos desta segunda-feira (11) foi a decisão da montadora norte-americana Ford de encerrar a fabricação de automóveis no Brasil. Há um século com atividades no país, a companhia vai deixar de produzir imediatamente nas plantas da Bahia e de São Paulo. Com o fechamento dessas unidades mais de 5 mil trabalhadores serão demitidos.

Apesar de o Espírito Santo não ter nenhuma fábrica da montadora, o Estado tem uma história com a gigante americana. Por pouco, a planta construída em Camaçari, na Bahia, seria instalada em terras capixabas.

No final da década 90, houve uma forte disputa entre vários Estados, entre eles Espírito Santo, Bahia, Rio de Janeiro, Pernambuco, Rio Grande do Sul e São Paulo, para receber o empreendimento, que projetava produzir 250 mil veículos por ano e que à época representaria um investimento da ordem de US$ 1 bilhão.

Na reta final das negociações, as principais chances estavam entre o Espírito Santo e a Bahia, que travaram uma briga para ver quem levaria a melhor. O governador do Estado era José Ignácio Ferreira. Ele junto com deputados federais e senadores da bancada capixaba fizeram uma força-tarefa para não deixar escapar o investimento, que poderia transformar a economia local, por exemplo, com a geração de 45 mil empregos entre diretos e indiretos.

O chefe do Executivo desenvolveu projeto de viabilidade, mobilizou empresários e políticos, recebeu representantes da Ford e chegou a providenciar uma maquete, que media 3,20 metros de comprimento por 1,30 m de largura, com os detalhes do empreendimento. No material, foi reproduzida a montadora e as 17 fábricas satélites que seriam instaladas no entorno. Até um porto próximo foi projetado para mostrar para a multinacional que o Espírito Santo oferecia excelentes opções logísticas.

Matéria do Jornal A Gazeta, em junho de 1999, mostra os impactos para a economia capixaba caso a fábrica da Ford fosse instalada no Espírito Santo
Matéria do Jornal A Gazeta, em junho de 1999, mostra os impactos para a economia capixaba caso a fábrica da Ford fosse instalada no Espírito Santo. Crédito: A Gazeta/Reprodução

Entre os municípios do Estado que eram cotados para receber a fábrica estavam Linhares, Serra, Guarapari, Anchieta e Aracruz. Os executivos da Ford chegaram a fazer visitas e sobrevoar as regiões para avaliar as melhores áreas para instalar a unidade. Mas, mesmo com todos os esforços do governo do Estado, das classes política e empresarial capixaba, o Estado da Bahia passou a fazer um lobby pesado para ficar com o empreendimento.

Uma das cartas na manga do governo baiano era em relação a um regime especial de incentivos fiscais. O governo federal reeditou uma medida provisória renovando um acordo automotivo no país, que beneficiava Estados do Nordeste, Norte e Centro-Oeste. A decisão gerou grande insatisfação entre as regiões Sudeste e Sul, além de críticas de organismos internacionais como Mercosul e Organização Mundial do Comércio (OMC).

Diante da ameaça de perder o empreendimento para a Bahia, que teria condições de oferecer mais vantagens fiscais para a Ford, o governador José Ignácio Ferreira chegou a ir, em junho de 1999, à Brasília para pedir que o então presidente, Fernando Henrique Cardoso (FHC), apoiasse a luta do Espírito Santo. Afinal, se o acordo automotivo continuasse em vigor, ele abriria uma vantagem para a Bahia significativa. De acordo com cálculos feitos pela montadora, ela teria um ganho extra anual de US$ 400 milhões se ficasse no território baiano e usufruísse do benefício.

Da mesma forma que políticos do Espírito Santo pressionavam para garantir o empreendimento por aqui, do outro lado, representantes da Bahia faziam lobby e demonstravam sua força junto ao governo federal. Ao final do processo, quem garantiu o projeto, chamado de Amazon, foi o município de Camaçari, na Bahia.

Fábrica do Ford Ka em Camaçari, na Bahia
Fábrica do Ford Ka em Camaçari, na Bahia. Crédito: Ford/Divulgação

À época, A Gazeta fez uma intensa cobertura sobre o que estava em jogo e como se deu a mobilização entre lideranças do Estado para tentar garantir o empreendimento. Em matéria do dia 16 de junho, pouco antes de a Ford anunciar a sua decisão final, o governador José Ignácio disse que fez tudo que era possível para mostrar aos dirigentes da montadora que a viabilidade técnica e econômica apontava o Espírito Santo como sendo a melhor alternativa.

José Ignácio Ferreira

Então governador do ES

"Fizemos um projeto de viabilidade. Tivemos apoio de empresários capixabas competentes. Fizemos uma maquete minuciosa, onde reproduzimos a montadora e as 17 fábricas satélites"

O governador ainda destacou que todos os passos nas negociações com a Ford foram repassados aos dirigentes dos demais Poderes estaduais, bancada federal e ao próprio presidente Fernando Henrique Cardoso.

No dia do anúncio, o presidente da montadora no Brasil, Ivan Fonseca e Silva, justificou que a decisão foi “absolutamente técnica” e que Camaçari apresentava as melhores condições de infraestrutura em relação aos demais locais que estavam na disputa.

Agora, cerca de 20 anos depois, a Bahia perde a fábrica que, por pouco, não veio para cá. Se a decisão tivesse sido outra, seríamos nós a enfrentar todas as implicações que o fim de uma atividade como uma fábrica de veículos pode representar para determinada região. Por mais que o problema não seja diretamente capixaba, é uma situação a se lamentar. O país como um todo perde.

OUTRAS MONTADORAS SONDARAM O ES

O economista Orlando Caliman recorda que nessa mesma época, na virada do século, além da Ford várias outras montadoras chegaram a sondar o Espírito Santo para se instalarem aqui.  "Havia um boom da indústria automobilística no Brasil. Então, muitas montadoras estavam em busca de localizações para novas plantas, a Toyota foi uma delas. Mas nenhuma companhia veio para cá", lembrou ao dizer que lamenta o fim das atividades da Ford no Brasil e ao citar que esse é um sinal ruim para o país. "Mostra que estamos perdendo a competitividade industrial".

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