Em alguns temas, entra ano e sai ano e parece que o Brasil continua dando murro em ponta de faca, como é o caso da produtividade. Nesse quesito, o país segue com indicadores (que não são nada bons) semelhantes aos da década de 80. O que é incrível é que, por mais que exista o diagnóstico do problema, e diversos setores da iniciativa pública e privada reconheçam a baixa produtividade como uma fragilidade, o país não consegue esboçar uma reação consistente para reverter o quadro.
Em 1980, o Brasil ocupava a 53ª posição em ranking de produtividade por trabalhador. Em 2015, caiu para a 68ª. Na comparação com outras nações, dados de 2017 reforçam o quanto estamos falhando. Para alcançar um mesmo resultado produtivo, o Brasil precisa de quatro profissionais, enquanto nos Estados Unidos, referência nessa área, é necessário apenas um. No Chile, para o que um trabalhador andino produz, por aqui é necessário ter o dobro de mão de obra. Já na Coreia do Sul e na Turquia, os brasileiros precisam ter 2,5 vezes a quantidade de empregados para chegarem à mesma geração de riqueza.
A baixa produtividade nacional se replica também no Estado, conforme mostra estudo inédito do Instituto de Desenvolvimento Industrial do Espírito Santo (Ideies), o qual a coluna teve acesso em primeira mão. De acordo com as autoras Thais Mozer e Vanessa Avanci, o grau de eficiência da produção da indústria capixaba caiu na última década.
Thais explica que a análise foi feita sobre a indústria de transformação – que é aquela que transforma matéria-prima em um produto intermediário ou final – no período de 2007 a 2016. A escolha deste setor, segundo a analista de estudos econômicos, se deu pelo fato de a indústria de transformação estar ligada aos demais segmentos e ter uma grande capacidade do que ela chama de “transbordamento”, ou seja, os seus resultados têm importante reflexo sobre as demais áreas.
De 2007 a 2016, a produtividade industrial capixaba recuou 12,6%. Isso significou uma queda média anual de 1,3%. A constatação deste número se deu após as autoras identificarem que, nesse período, embora a indústria tenha contratado mais profissionais, a riqueza gerada por eles para a sociedade foi menor. O comportamento do Brasil ao longo desse tempo foi similar. Enquanto a produtividade do Espírito Santo teve um baque de 12,6%, a do país foi de -14,3%.
Mesmo com o diagnóstico geral negativo, algumas atividades se destacaram positivamente, como foi o caso de produtos de metal, vestuário e material plástico. A produtividade de produtos de metal, que envolvem, por exemplo, a fabricação de estruturas metálicas teve um ganho de eficiência de quase 98% de 2007 a 2016. Na contramão, e puxando o índice geral para baixo, está a atividade ligada ao segmento de bebidas, que sofreu uma queda de 61,8%.
Na comparação de quem foi bem e quem foi mal, dois setores afins chamam a atenção. Um é o do vestuário, que teve um ganho de produtividade em uma década de quase 60%, e o outro é o têxtil, que perdeu 46% no mesmo período. A explicação de Thais Mozer é que a concorrência com a China devastou a produção têxtil nos últimos anos, mas que a indústria de roupas, com receio de também perder espaço para os asiáticos, se profissionalizou e inovou nesse período, garantindo melhorias de processos e ganhos de eficiência.
O estudo também comparou como as atividades industriais do Espírito Santo se comportaram em relação à nacional. O destaque capixaba ficou para o tradicional segmento de papel e celulose, em que a produtividade local supera a brasileira em quase seis vezes. Entre as menores produtividades relativas aparece um segmento importante para o Estado, o de derivados do petróleo, mas que demonstrou ter uma eficiência inferior, com apenas cerca de um quinto da produtividade nacional.
Para a economista Vanessa Avanci, conhecer o desempenho de algumas atividades no longo prazo ajuda o Estado a entender onde ele pode buscar evoluir mais. “O estudo nos permite enxergar onde estamos acertando e onde precisamos dar mais atenção.”
O diretor executivo do Ideies, Marcelo Saintive, acrescenta que o aumento da produtividade pode ter um poder gigantesco para alavancar o desenvolvimento de uma região ou de país, e lembra que para ela deslanchar não basta uma ação isolada, mas iniciativas em várias frentes e praticadas por diversos atores. Ambiente de negócios, capital humano, infraestrutura, inovação e políticas públicas e econômicas são algumas citadas por ele.
O raio-x feito pelo Ideies traz informações que transformam impressões e deduções sobre a produtividade capixaba em dados relevantes e consistentes sobre o comportamento da produção da indústria e da eficiência da nossa mão de obra. Tirar a névoa dos achismos é o primeiro passo. Os próximos, que devem ser rumo a um Estado mais produtivo, são ainda mais importantes.