“Deu a louca no mercado petrolífero americano”. “Dia histórico e bizarro”. “Preço de venda inacreditável”. “Há um certo exagero sobre a queda do valor do WTI”. “Comportamento de desespero”. “Vamos comer sal no curto prazo”. “Estoques abarrotados”. “O coronavírus está lambendo os Estados Unidos”.
Essas foram algumas das expressões que ouvi nesta segunda-feira (20) ao conversar com especialistas sobre o fato de o preço do petróleo tipo WTI, referência americana, ter o contrato de maio fechado o dia valendo menos US$ 37,63, situação inédita na história.
Na prática, o que aconteceu foram produtores dispostos a pagar para quem tirasse de seus tanques o petróleo ali armazenado, ou seja, o comprador não pagaria nada pela mercadoria e ainda “levava um troco” por ter resolvido um problema de estocagem.
Toda essa situação, que deixou os Estados Unidos e o mundo incrédulos, é um dos reflexos da pandemia do coronavírus, que fez despencar a demanda global por diversos produtos, incluindo o petróleo, especialmente o WTI.
Mas considerando que no Brasil essa não é a referência de barril utilizada, por aqui é o Brent, há motivos para nos preocuparmos com esse movimento de queda aguda dos preços visto nesta segunda? A resposta é não e sim! Explico.
Fazendo uma relação direta e simples, com base nas explicações de especialistas, a resposta é não. Afinal, como citei acima, os cálculos feitos pelas petroleiras que atuam no Brasil, pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) e pelos Estados produtores do ouro negro levam em conta a cotação do Brent e, diferentemente do WTI, o Brent não sofreu tamanho derretimento de preços em um único dia. E aqui vale lembrar que foi apenas o contrato futuro de maio do WTI que despencou, o de junho não sofreu o mesmo baque.
Enquanto o preço do contrato de maio do WTI caiu quase 306%, os contratos futuros de junho caíram 18,4% e ficaram cotados a US$ 20,43, o barril. O Brent, por sua vez, encerrou o dia com uma desvalorização de 8,93%, com o barril a US$ 25,57. Ou seja, é preciso entender que houve uma situação específica.
Mas a resposta é também sim porque não é possível isolar por completo esses dois tipos de petróleo. Ao longo da história, eles sempre tiveram preços próprios, mas nunca com uma diferença tão grande. Ao acontecer esse distanciamento entre as cotações é como se soasse um alerta mostrando o colapso que existe nesta relação de oferta e demanda. Uma demonstração disso foi dada com a venda a preços negativos do WTI.
Para o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie), Adriano Pires, o “coronavírus rasgou a lei da oferta e da demanda”.
"O consumo reduziu drasticamente, optou-se pelo corte na produção e, mesmo assim, os preços continuam a cair. A demanda global caiu cerca de 20 milhões a 25 milhões de barris por dia. Enquanto a demanda não se reestabelecer, vamos ter esse fenômeno bizarro"
Ele observa que “a sorte” do Brasil é usar o Brent como referência, mas reconhece que a queda do preço do barril americano arrasta para baixo a cotação do Brent.
RECEITAS E INVESTIMENTOS NO ES ESTÃO AMEAÇADOS
Com o preço do barril do petróleo em queda, os produtores e as suas respectivas regiões de atuação têm muito a perder. Não faz sentido para quem extrai o óleo, continuar com uma produção se não há para quem vender.
Nesse caso, Estados produtores, como o Espírito Santo, perdem duas vezes: perdem na receita com as participações governamentais, que utilizam o preço do barril como base de cálculo, e perdem ao verem a produção do volume de óleo ser reduzida, como um ajuste de demanda.
Se isso já não fosse suficiente, os impactos vêm também do lado dos investimentos. Empresas com projetos previstos para este ano irão segurá-los e deixarão de colocar recursos em um setor que demonstra tamanha instabilidade e baixo retorno.
O presidente da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), Léo de Castro, reforça que o preço atual do petróleo desestimula o investidor.
"Essa é uma indústria que requer investimentos elevados. Nós tínhamos a perspectiva de atrair empresas e negócios deste setor para cá, mas, a partir do momento que esse mercado dá uma parada, tudo fica mais lento e decisões são adiadas"
Adriano Pires complementa que outra consequência da pandemia vai ser o cancelamento e/ou o adiamento de leilões de petróleo que eram previstos para 2020.
“Além dos royalties, que estimo que o Brasil vai ter perdas de receita de 40%, o país vai perder o dinheiro dos leilões de óleo e gás. Esse setor foi um grande arrecadador para a União, tanto no governo de Michel Temer quanto no do Bolsonaro, no ano passado. Em 2020, essa receita não vai existir.”