Os episódios da última semana que giraram em torno da reforma da Previdência começam a despertar na sociedade um sentimento do qual o país já conhece, o da descrença. O presidente Jair Bolsonaro (PSL) e seus aliados estão sendo capazes de criar situações que sabotam seus próprios projetos, aliás, que ameaçam o principal e mais urgente deles: o de uma nova aposentadoria.
As indiretas dadas pelos seus filhos por meio das redes sociais, como as disparadas por Carlos Bolsonaro contra o presidente da Câmara Rodrigo Maia; a fala de pessoas alinhadas com o governo de que não existe déficit da Previdência, como fez o líder do PSL no Senado Major Olimpio; e a falta de convicção de Bolsonaro, ao dizer que, “no fundo, não gostaria de fazer a reforma”, além de já ter admitido que alguns pontos podem vir a ser alterados, a exemplo da idade mínima para as mulheres, demonstram que o foco do seu time tem sido bem diferente daquele que o país realmente precisa.
A dificuldade de Bolsonaro de organizar uma base, o brando projeto de reforma para os militares, a prisão do ex-presidente Michel Temer e o intenso curto-circuito com Maia – que já declarou que o governo tem que parar de “terceirizar a articulação” política com o Congresso, reforçando que essa responsabilidade não vai carregar sozinho – só aumentam a instabilidade para esse processo que, por si só, já é bem desgastante e impopular.
Antes mesmo de chegar aos 100 primeiros dias de governo, período que geralmente é considerado como a lua-de-mel com os eleitores, parlamentares e mercado, o presidente está conseguindo azedar sua relação nas diferentes esferas trazendo incredulidade para a capacidade da reforma de se viabilizar neste ano. A pesquisa do Ibope, que mostrou a queda de 15 pontos na avaliação positiva do governo de Bolsonaro, é um indicativo da frustração com a sua maneira de governar.
O sinal amarelo já acendeu entre os investidores. Tanto é que a Bolsa de Valores reagiu. Na mesma semana que atingiu os 100 mil pontos, fechou a sexta-feira no patamar dos 93 mil, após as repercussões sobre o andar de lado da reforma. Desde a eleição de Bolsonaro, o mercado deposita todas as suas fichas no novo presidente. Mas pode custar ao governo a mudança de ânimo e o fim do apoio desse grupo se Bolsonaro continuar insistindo em conduzir o país de forma amadora.
Os acontecimentos nestes três primeiros meses, resultando na falta de fôlego para o projeto que vai reduzir o rombo fiscal, fazem lembrar as expectativas que foram criadas quando Temer assumiu o comando do país após o impeachment de Dilma Rousseff.
Naquela ocasião, no primeiro momento, todos acreditavam que a reforma da Previdência seria bem-sucedida. Mas quando vieram à tona as denúncias de Joesley Batista, dono da JBS, contra Temer, a votação e as discussões sobre a reforma foram enterradas de vez.
Agora, não pesa contra Bolsonaro acusações desse tipo e com tamanha gravidade. Mas a crise que se intensificou entre o Executivo e o Legislativo – ontem o festival de atritos entre o presidente e Rodrigo Maia parecia não ter fim –, já está sendo vista como uma ameaça real para o futuro da reforma. Falar de déjà vu da Previdência não seria exagero.
O quadro preocupa (e muito) analistas. Mas deveria preocupar ainda mais o presidente Jair Bolsonaro. Sem a mudança de rumo dos explosivos e crescentes gastos com as aposentadorias, o país não terá a menor chance de voltar a crescer.
Isso significa que os quase 13 milhões de desempregados vão continuar fora do mercado de trabalho, o poder de consumo das famílias vai reduzir mais, as empresas não vão produzir e o ciclo vicioso só vai piorar. Sem contar, que logo não haverá dinheiro para pagar os aposentados.
Minar a reforma da Previdência, é minar a capacidade de governar o Brasil. Se isso não está claro para a equipe de governo e para parlamentares, está na hora de acordar para o fato. Sem uma mudança na direção da economia, não haverá tuítes e lives pelo Facebook que serão capazes de conter a insatisfação da população.