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Jornalista de A Gazeta, há mais de 10 anos acompanha a cobertura de Economia. É colunista desde 2018 e traz neste espaço informações e análises sobre a cena econômica

Mourão diz ter as soluções para o país, mas não tem o poder

Vice-presidente da República, Hamilton Mourão, participou do evento Vitória Summit, onde apresentou caminhos para a retomada do Brasil. Seu discurso foi muito assertivo, mas descolado do que vemos acontecer na prática no governo federal.

Publicado em 03/12/2020 às 04h00
Atualizado em 03/12/2020 às 04h00
O vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão, participou do evento Vitória Summit, promovido pela Rede Gazeta
O vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão, participou do evento Vitória Summit, promovido pela Rede Gazeta. Crédito: Carlos Alberto Silva

O vice-presidente da República, Hamilton Mourão, fez um diagnóstico preciso do momento que o Brasil vive e de todos os desafios que temos a superar. Durante participação no evento Vitória Summit, promovido pela Rede Gazeta, nesta quarta-feira (2), ele foi certeiro ao comentar temas econômicos, fiscais, políticos, sanitários e ambientais.

Propôs mudanças em áreas que há anos são esperadas pelo país, como a reforma tributária. Tocou em pontos impopulares, a exemplo da necessidade de rever a estabilidade e os privilégios do serviço público. Lembrou que, se não houver ajuste das contas públicas, em breve, o país vai começar a atrasar salários e perderá, de vez, a confiança do investidor.

Citou que as privatizações precisam andar, caso contrário, as empresas públicas vão continuar “sugando os recursos do Tesouro Nacional”. Enfatizou que o mundo não tolera mais o desperdício de recursos naturais e que a sustentabilidade está no cerne da questão ambiental. Enfim, listou um emaranhado de problemas e outros tantos caminhos para sair deles. 

Apesar do quadro traçado por Mourão ser fiel à realidade do país, seu discurso mostra-se descolado com o que o governo federal de fato entrega à sociedade.

Passados quase dois anos com o presidente Jair Bolsonaro e sua equipe à frente do Executivo nacional, continuamos sem simplificar o sistema tributário que, além de complexo, representa um terço do PIB do país e coloca o Brasil na lista das nações que mais cobram tributos no mundo. Seguimos com um elevado déficit primário, previsto para fechar 2020 na casa dos R$ 870 bilhões.

Insistimos em não combater privilégios. Ao invés da busca pela redução das desigualdades entre servidores e trabalhadores da iniciativa privada, vimos o presidente privilegiar, como aconteceu na Reforma da Previdência, uma categoria que ele sempre fez questão de dar as mãos: a dos militares.

Permanecemos pagando a conta das empresas públicas ineficientes. A promessa do ministro da Economia, Paulo Guedes, de privatizar tudo e conseguir mais de R$ 1 trilhão por meio dessas operações de venda das estatais não emplacou nem parcialmente, colocando sobre o posto Ipiranga a pecha de “vendedor de ilusões”.

Ampliamos os olhares do mundo sobre a nossa má condução da política ambiental. O desmatamento na Amazônia voltou a bater recorde e cresceu 9,5% de 2019 a 2020, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) no último dia 30.

Ou seja, tudo o que foi colocado por Mourão em sua apresentação, na prática, não passa de um discurso.  O vice-presidente de fato sugere soluções pertinentes e urgentes para o país. Seu senso de responsabilidade é inegável, mas o militar não tem o poder. Ainda que faça parte do alto-escalão, não é ele quem bate o martelo final.  O presidente Bolsonaro, este sim, é quem dita as regras. Uma pena elas não serem as mesmas da cartilha do seu vice.

A impressão passada por Mourão ao longo da sua fala no evento foi a de que ele não fazia parte do comando do país. Era como se estivéssemos ouvindo economistas e analistas que, por mais que possam diagnosticar os problemas políticos e econômicos do Brasil, nada podem fazer para mudá-los. 

Mesmo assim, Hamilton Mourão deixou recados. Um deles é que se as dificuldades que o país têm hoje não forem enfrentadas em 2021, em 2022 isso ficará muito mais difícil de ser resolvido por conta das eleições presidenciais. Para ele, "2021 é o ano para fazer isso tudo", do contrário, o ambiente político eleitoral vai atropelar as reformas e outras ações que precisam ser tomadas. 

Hamilton Mourão

Vice-presidente da República

"Isso é um processo e processos começam com mudanças na legislação, com reformas. Se não fizermos isso, se o presidente for reeleito, ele terá uma bomba maior para administrar, e, se não for, vamos passar o abacaxi para quem nos substituir"

Outro recado transmitido em alto e bom som foi o da necessidade de esforços conjuntos e do senso de coletividade. Mourão provocou ao dizer que todos pedem mudanças, mas ninguém, no fundo, quer abrir mão do que já conquistou. Para ele,  "todos terão que ceder em algum ponto para que o conjunto vença".  O recado foi bem dado à plateia capixaba, resta saber se, em Brasília, esse pedido vai ecoar. 

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