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Beatriz Seixas

Governo de Bolsonaro ainda não encontrou o seu rumo

100 primeiros dias não apresentaram os projetos que serão o carro-chefe desta gestão

Publicado em 09 de Abril de 2019 às 22:58

Públicado em 

09 abr 2019 às 22:58
Beatriz Seixas

Colunista

Beatriz Seixas Beatriz Seixas
Presidente Jair Bolsonaro Crédito: Reprodução/Instagram
Os 100 primeiros dias do governo de Jair Bolsonaro já teve de tudo. Menos a clareza para onde vai o país ou pelo menos qual rumo que esta gestão pretende dar para o Brasil nos próximos meses e anos. Até agora, as ações do presidente e de parte da sua equipe e de seus aliados foram capazes mais de gerar confusão do que uma arrumação na casa.
Quase um terço do ano se passou e a impressão é de que ainda estamos no período da campanha eleitoral. Até mesmo o tema que é praticamente consenso sobre a urgência de ser debatido e de passar por uma reforma – a Previdência – sofreu reveses que vieram do próprio núcleo do Palácio do Planalto.
A questão é que quanto mais tempo se perde com temas secundários (alguns deles até esdrúxulos), mais longe o país fica de ajustar o seu capenga quadro fiscal e mais o governo de Jair Bolsonaro se aproxima da desconfiança do mercado e da descrença da população.
A coluna conversou com o doutor em Economia, sócio-diretor da Tendências Consultoria e ex-presidente do Banco Central, Gustavo Loyola, para entender o atual momento. Também é sobre esse cenário que ele vai dar palestra nesta sexta-feira, 12, durante o evento “Diálogos sobre Desenvolvimento e Competitividade”, em Vitória, promovido pela Rede Gazeta. Um dos pontos destacados por Loyola, na entrevista a seguir, é que a não aprovação das novas regras para a aposentadoria ou uma reforma desidratada vai fazer com que o país continue estagnado, o que irá respingar diretamente na popularidade de Bolsonaro. Confira.
“Sem reforma, país não cresce e o governo vai perder popularidade”
Gustavo Loyola, doutor em Economia, sócio-diretor da Tendências Consultoria Integrada e ex-presidente do Banco Central Crédito: Gabo Morales/Divulgação
 
Qual a avaliação do senhor desses 100 primeiros dias do governo Bolsonaro?
Esse é um governo que tem características muito heterogêneas. De um lado tem áreas que estão no caminho certo. Mas, por outro lado, ainda existe muita confusão. Além disso, há na área econômica, onde o governo está mais bem estruturado, um problema que não é uma questão da qualidade técnica da proposta da reforma [da Previdência], mas da questão política, da articulação.
Em agosto de 2018, o senhor alertou para os riscos de governabilidade de um candidato que não tivesse base parlamentar se referindo a Jair Bolsonaro. Estamos vendo isso acontecer?
A avaliação que faço é que o governo está falhando até agora na formação da base. A articulação política tem sido problemática, inclusive teve um período de crise entre Bolsonaro e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Sem de fato uma articulação política forte, é difícil tocar e ter sucesso na reforma.
A reforma da Previdência passa com o texto que prevê a economia de R$ 1,1 trilhão em 10 anos ou avalia que tende a desidratar?
Acho que vai sofrer alguma desidratação. O grau vai depender da articulação política. Alguma mudança sempre haverá. A intensidade dessa mudança é algo que vai depender da articulação.
Qual o limite para a desidratação?
Acho que uma reforma que traz economia em 10 anos de R$ 700 bilhões, por exemplo, já é uma reforma que vai ser bem recebida. Acredito que o cenário mais provável é que ela passe com esse patamar. Isso acontecendo surge uma boa perspectiva, mais favorável para o Brasil recuperar o crescimento no curto prazo.
Mas e se não passar?
Se ela não passar ou passar muito enfraquecida, aí de fato os mercados vão reagir mal. O investidor vai continuar com certa aversão ao risco-Brasil porque a situação fiscal brasileira merece cuidado. Se você não ataca o problema estrutural das nossas contas públicas, que é a Previdência, a tendência é de deterioração.
Se isso acontecer, como fica o crescimento do país?
 
Vai ser muito medíocre se [a reforma] não passar, quase no zero a zero. Dificilmente terá crescimento sustentável. Evidentemente, o país não consegue conviver com a falta de crescimento. O próprio governo vai perder popularidade. O Brasil passou por uma recessão que é uma das piores das últimas décadas. A economia está longe do nível de produção do pré-crise.
Sob a ótica econômica este início de ano está deixando a desejar?
O primeiro trimestre foi ruim, decepcionou. Isso está levando o mercado financeiro e analistas, inclusive nós aqui da Tendências, a reduzir as projeções do PIB para este ano. Acredito que se a reforma passar ao longo do ano, a economia acelera um pouco mais. Mas dificilmente consegue crescer muito acima de 2%. Mas, se a reforma não passar, aí podemos ficar com um número mais para 1 do que para 2, e os efeitos sobre o ano que vem podem ser piores.
Além da Previdência, quais agendas são prioritárias?
Existem várias. Algumas que são complexas mas que não podem ir agora para o Congresso porque concorrem com a Previdência, como a reforma tributária. Há ainda toda uma agenda de desburocratização, simplificação de regras, segurança jurídica, questões regulatórias, privatização, concessões, abertura da economia. São agendas que no fundo vão impactar o crescimento da produtividade. Esse tipo de agenda deveria ser perseguida. O governo poderia quase que paralelamente começar a tocar essas minirreformas. Muitas coisas poderiam ser feitas nessa direção. Assim, isso iria ajudar a economia a preservar o otimismo enquanto o processo de reforma da Previdência flui no Congresso. Afinal, ninguém se ilude que ela [reforma] vai ser aprovada agora. Ela tem tramitação longa e provavelmente só seria aprovada no início do quarto trimestre.
O senhor já presidiu o Banco Central. Quais principais desafios acredita que o BC tem no atual contexto de economia ainda bem fragilizada?
O Banco Central tem duas funções básicas. Manter estabilidade da moeda e a segunda é a estabilidade financeira. Em ambas as áreas está muito bem. Não tem risco inflacionário maior. Não há nenhuma necessidade de o Banco Central agir nessa direção. Por outro lado, temos estabilidade financeira e estamos bem. O ex-presidente Ilan Goldfajn deixou uma agenda importante que o Roberto Campos vai tocar, que é a agenda da redução das taxas de juros bancárias, melhorar o ambiente de crédito. Há sempre dúvida se o Banco Central pode baixar os juros ou não. Ele está numa posição mais cautelosa por causa da reforma. Acho que o Banco Central pode até decidir derrubar os juros, mas acredito que no momento está buscando uma atitude mais cautelosa. 
 

Beatriz Seixas

Beatriz Seixas Beatriz Seixas

Jornalista de A Gazeta, há mais de 10 anos acompanha a cobertura de Economia. É colunista desde 2018 e traz neste espaço informações e análises sobre a cena econômica

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