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Jornalista de A Gazeta, há mais de 10 anos acompanha a cobertura de Economia. É colunista desde 2018 e traz neste espaço informações e análises sobre a cena econômica

Empresários fazem apelo para sociedade capixaba aumentar o isolamento

Setor produtivo, por meio do ES em Ação, divulgou carta em que pede para a população assumir o compromisso de combater o novo coronavírus com o objetivo de preservar vidas e empregos

Publicado em 03/06/2020 às 15h23
Atualizado em 03/06/2020 às 15h33
Carta
Carta "Pelo Bem de Todos" foi produzida pelo ES em Ação. Crédito: ES em Ação/Reprodução

Com o mote “Pelo Bem de Todos”, empresários do Espírito Santo divulgaram uma carta (imagem acima) à sociedade em que fazem um apelo para que as pessoas aumentem a responsabilidade individual para combater a pandemia do coronavírus. No documento, que é assinado pela entidade ES em Ação, o setor produtivo afirma que muitos estão desrespeitando as regras sanitárias e descumprindo as orientações de isolamento. E pede que os capixabas só saiam de casa se for realmente necessário.

“Temos observado que as pessoas estão mais nas ruas e respeitando menos as regras de prevenção e isolamento. Pela preservação da vida e dos empregos, cada um tem que fazer a sua parte. Chegou a hora da sociedade capixaba se unir e mostrar sua forca e sua disciplina! Apenas as medidas do governo e do setor produtivo não serão suficientes para vencermos esta luta. A prevenção começa por cada cidadão. Evite sair de casa se não for trabalhar ou resolver algo de extrema necessidade. Se é empresário, adote como regra as medidas de proteção à saúde na sua empresa e entre os seus colaboradores. Se participa da administração pública, municipal ou estadual, dê o exemplo e dissemine informação e boas práticas de prevenção”, diz um dos trechos da carta.

A coluna conversou com o presidente da organização, Fábio Brasileiro, sobre o assunto. De acordo com ele, a iniciativa de lançar esse pedido à população tem o objetivo de preservar vidas e também a atividade econômica. Empresários estão preocupados com os índices de contaminação da Covid-19 e com o fechamento de postos de trabalho que, em abril, alcançou 17,8 mil profissionais.

Questionado pela coluna se o apelo não poderia parecer incoerente, já que o setor produtivo defende o funcionamento das atividades econômicas e, ao mesmo tempo, pede para que as pessoas fiquem em casa, Brasileiro afirmou que não. Ele ponderou que a retomada gradual e com cuidados é necessária dentro desse momento de “novo normal” para tentar oferecer opções para as famílias que precisarem da prestação de algum serviço e também para ajudar na sobrevivência dos negócios e na manutenção dos empregos.

Confira a entrevista abaixo.

Fabio Brasileiro, presidente da ES em Ação
Fábio Brasileiro é presidente do ES em Ação. Crédito: Edson Chagas

Fábio Brasileiro

Presidente do ES em Ação

"Precisamos parar de transferir a responsabilidade para o outro"

Por que o ES em Ação está fazendo esse apelo por meio da carta?

Por alguns fatores. Um é a questão da polarização nessa discussão, se governo libera ou não libera. Não é papel só do governo proibir e autorizar. Todo cidadão tem que ter consciência de onde pode contribuir e onde não pode. Quando o governo toma decisão de abrir uma atividade, ele tem que olhar o ponto de vista do caixa, da arrecadação, do emprego, do empregador. Não deve ser olhado se beneficiou ou prejudicou determinado setor. O que está se buscando é o equilíbrio de um ecossistema. Em primeiro lugar estão as vidas, em segundo é emprego, que vai gerar renda e dignidade para o trabalhador.

Mas por que esse pedido está vindo agora?

Quando vimos o número de fechamento dos postos de trabalho em abril, quando vimos o último fim de semana, do ponto de vista do isolamento, com praias e calçadões muito movimentados, acendeu uma luz amarela para trazermos o debate para mesa. Estamos passando por um momento crítico do ponto de vista da contaminação. É preciso que a sociedade, que a população que não precisa sair de casa, assuma o papel dela também. Porque o que a gente viu foi uma grande quantidade de pessoas em lazer. Tinham muitas famílias, inclusive as que pertencem ao grupo de risco, transitando pelo calçadão de Camburi, pela Praia da Costa, e tantos outros locais. Temos que refletir que somos uma sociedade com governantes, empresários, servidores públicos, trabalhadores, estudantes. Então, a gente quis provocar essa discussão.

Diante do atual cenário e números de caso, o setor produtivo avalia que uma definição em relação à adoção ao lockdown está próxima de acontecer?

A equipe de governo do Estado foi muito clara desde o início, quando adotou a matriz de risco, de que quanto maior os indicadores, mais restritivas seriam as medidas. A gente ficou desde o início da pandemia numa zona segura, mas quando você começa a olhar que o índice de transmissão passou de 1,5, ou seja, cada pessoa está transmitindo para mais de uma, para quase outras duas pessoas, isso preocupa. Quando a gente vê que, por um lado, o índice de contaminação está subindo e, por outro, o índice de isolamento social está caindo e chegando perto de 40%, considero que estamos indo no caminho errado.

Faltam ações, compromisso?

O governo estadual está fazendo a parte dele, comprando mais leitos, mais respiradores. Mesmo com todos os entraves, ele está indo bem. O que saiu do controle foi o nível de confirmação de casos. Temos que mudar algo que não é estrutural para evitar mais casos. O comércio já está cambaleando por conta dos mais de 60 dias parados. O setor de serviços também está muito cambaleante. Os profissionais liberais estão muito limitados para exercer suas atividades e temos um pouco da indústria funcionando. Se você caminhar para medidas mais restritivas, como proibir deslocamento de pessoas sem estarem devidamente autorizadas, vai agravar a situação econômica. Temos que preservar as vidas, mas temos que tomar conta do emprego. Parece que a população não despertou para isso. Precisamos fazer com que essa mensagem chegue a todo mundo. Deve ter muita gente achando que o problema é dos governos, das empresas, dos médicos. Mas é de todos nós.

Até que ponto avalia que essa falta de comprometimento individual é a falta dessa mensagem chegar às pessoas? Ou ela tem mais relação com o fato de que ninguém aguenta mais ficar em casa e, ao ver outras pessoas na rua e orientações divergentes, acaba flexibilizando o isolamento?

Acredito que estamos trabalhando pouco a conscientização. Acho que efetivamente tem sido dada muita ênfase em quantos casos, quantas mortes, qual o papel do governo federal, o que governo federal está deixando de fazer. Mas tem pouca conscientização do que é preciso ser feito e o papel de cada um. Acredito que os veículos de comunicação e o próprio governo devem trabalhar melhor a mensagem da responsabilidade que cada um deve ter. Precisamos parar de transferir a responsabilidade para o outro.

Mas esse apelo para que as pessoas fiquem em casa e tenham essa responsabilidade individual e coletiva não pode soar como incoerente uma vez que o setor produtivo vem lutando para abrir seus negócios, até por uma questão de sobrevivência econômica, como aconteceu recentemente com o comércio e os shoppings?

A mensagem deve ser: só saia para fazer o que é essencial. Os serviços estão disponíveis e isso ajuda a acabar com aquela sensação de escassez, evitando que as pessoas optem por fazer estoque porque têm o receio de que não vai ter acesso depois. É uma forma de criar um novo normal. Os serviços estão funcionando e seguindo os protocolos, com regras de segurança. Eles estarem acessíveis é importante. Por exemplo, se eu preciso ir à farmácia, eu faço a aquisição do que preciso e volto para dentro de casa. Ainda não foi necessário no Estado um cerceamento do direito de ir e vir.s Esse esclarecimento é que a gente quer que a sociedade tenha. Afinal, o comércio fechado mais tempo começaria a demitir. Porque já não tem o que fazer com o empregado. A empresa já adiantou férias, agora, está segurando quem é do grupo de risco. Quem não é do grupo de risco está em uma escala de trabalho menor para haver menos aglomeração do transporte público, por exemplo. Quando o Estado traz a abertura gradativa, em horários menores, ele garante que não vão faltar produtos de higiene, de vestuário, de manutenção para um eletrodoméstico importante da casa, como um fogão, mas traz o recado de que isso deve ser aproveitado com parcimônia para que não seja preciso fechar os estabelecimentos. Daqui para frente, estamos estabelecendo um novo normal, e é preciso que a gente treine como isso vai funcionar, até porque devemos ficar sob efeito desse risco por mais tempo. É um novo modelo de vida que a gente não imaginava. Por isso, não vejo a mensagem como contraditória. Precisamos estabelecer um novo normal em que devemos ter acesso a tudo, mas que a sociedade deve tomar todos os cuidados de higienização e usar com parcimônia.

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