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Jornalista de A Gazeta, há mais de 10 anos acompanha a cobertura de Economia. É colunista desde 2018 e traz neste espaço informações e análises sobre a cena econômica

Criação de empregos será desafio para novos prefeitos do ES

Gestores eleitos devem planejar políticas que gerem oportunidades de trabalho e renda. Desburocratizar a abertura de negócios e identificar vocações econômicas são caminhos para ajudar a reverter as elevadas taxas de desemprego

Publicado em 01/12/2020 às 04h01
Carteira de Trabalho e previdência social
Carteira de Trabalho: taxa de desemprego no ES foi de 13,9% entre julho e setembro de 2020, de acordo com a Pnad. Crédito: Fernando Madeira

Os desafios dos novos gestores públicos são muitos. Aliás, sempre foram em um país onde a desigualdade se faz presente a todo o momento e as oportunidades não se apresentam da mesma forma para os brasileiros. Esses desafios, em muitos casos, ao invés de serem sanados ou reduzidos, se multiplicam conforme surgem novos contextos. Em 2020, o maior deles foi e está sendo a pandemia do novo coronavírus.

Neste ambiente de crise sanitária, outras crises vieram a reboque ou simplesmente foram intensificadas, escancarando problemas já conhecidos entre nós. Aqui, quero chamar a atenção para um deles: o fragilizado mercado de trabalho. A taxa de desemprego no Espírito Santo foi de 13,9% entre julho e setembro, o pior resultado desde o primeiro trimestre de 2017, segundo dados da Pnad. No Brasil, o percentual da desocupação foi ainda mais elevado, de 14,6%, o maior da série medida pelo IBGE.  

A criação de vagas, sejam elas formais ou informais, perde o fôlego no Estado e no país não é de hoje. Desde 2015, com a crise interna econômica, muitas empresas fecharam suas portas ou reduziram quadros, respingando no contingente de mão de obra. Agora, com a pandemia, a história se repete. Mais trabalhadores são penalizados, principalmente os mais jovens, as mulheres e os negros.

Portanto, este é um tema que merece o olhar dos novos gestores. Mais do que isso! Exige uma mobilização em busca de soluções. Claro que os prefeitos eleitos sozinhos não irão conseguir enfrentar o problema, mas eles podem dar uma importante parcela de contribuição, somando esforços às esferas estadual e federal, bem como à própria iniciativa privada, para a reversão desses números.

Vale destacar que o comportamento sobre o avanço da Covid-19 permanece uma incógnita. Com isso, não sabemos se a recuperação da atividade econômica vai continuar acontecendo, como foi registrada por meio de vários indicadores do terceiro trimestre, ou se ela pode vir a ser interrompida por uma nova onda da doença e da necessidade de adoção de medidas mais severas de isolamento. Diante de tantas dúvidas, uma coisa é certa: enquanto esse quadro persiste o empresário não se sente seguro para contratar. 

Por isso, volto a reforçar: os novos prefeitos devem assumir desde já, na transição de governo, o compromisso de trabalhar pelo tema. É muito difícil pensar que determinada cidade possa isoladamente ser bem-sucedida na criação de vagas quando ainda temos um cenário instável em nível nacional e global, mas existem caminhos que podem ser pavimentados por meio de iniciativas municipais. 

Os economistas Eduardo Araújo e Arilda Teixeira conversaram sobre o tema com a coluna e frisaram que uma das formas de os prefeitos serem mais efetivos nesta reestruturação do mercado de trabalho é por meio da criação de condições favoráveis para que empresas, de pequeno a grande porte, sejam atraídas para suas cidades e consigam desenvolver negócios. 

"Os prefeitos têm que agir para que o ambiente econômico seja atrativo para o investidor, para o homem e para a mulher de negócios. As administrações municipais devem olhar quais potencialidades de atividade econômica podem ser exploradas para que isso seja um recomeço naquela região, uma retomada do ânimo para produzir", frisa Teixeira.

Ela complementa que o empreendedor percebe as oportunidades olhando para o ambiente de negócios que um determinado município oferece.

Na foto, Arilda Teixeira, economista e coordenadora Cursos de Graduação e MBA da Fucape Business School
Arilda Teixeira é economista e coordenadora Cursos de Graduação e MBA da Fucape Business School. Crédito: Daniel Alencastre/Fucape

Arilda Teixeira

Economista e professora da Fucape

"O poder público é responsável pela legislação, pela regulamentação. Se o gestor deixar o terreno pavimentado, gradativamente a atividade econômica vai se recuperando e aí ele ajuda a reduzir o desemprego. Eu costumo dizer que o poder público ajuda muito quando não atrapalha"

Assim com a professora, o economista e consultor do Tesouro Estadual Eduardo Araújo defende que os gestores municipais pensem em planos de desenvolvimento, identificando as vocações econômicas e definindo estratégias que ajudem a apresentar a cidade a empreendedores, com o objetivo de atrair negócios. Além disso, criem ou atualizem marcos legais que hoje são considerados empecilhos para o avanço de empreendimentos. 

"A transformação na cidade pode acontecer de várias formas. Seja identificando as fragilidades e dificuldades que a prefeitura impõe sobre o setor produtivo, seja buscando parcerias com outros municípios da região com vocações semelhantes. Assim, as cidades trabalham em conjunto pelo fortalecimento da economia e do mercado profissional. Outro ponto que pode parecer mínimo, mas que pode fazer a diferença, é a prefeitura ter um site em que ela apresente o município e ofereça canais facilitadores para o empreendedor", sugere. 

Araújo acrescenta que os novos prefeitos devem intensificar a articulação junto aos governos estadual e federal, bem como à bancada capixaba.  Para ele, montar bons projetos na tentativa de atrair recursos de emendas é uma via eficaz para tentar viabilizar empreendimentos que podem ser geradores de empregos e contribuam para a estruturação da cidade. 

Eduardo Araújo, economista
O economista Eduardo Araújo defende que os prefeitos avaliem as vocações econômicas de suas cidades e identifiquem regras e burocracias que atrapalham a realização de negócios. Crédito: Acervo pessoal

Eduardo Araújo

Economista e consultor do Tesouro Estadual

"Os recursos municipais sempre foram escassos. Agora, estão mais escassos ainda. É preciso que o gestor tenha a habilidade de saber qual a política pública vai trazer um impacto maior no mercado de trabalho. Nos últimos meses, apareceram muitas promessas nas campanhas, agora, é a hora de colocar na planilha e definir prioridades com base no impacto que isso pode ter na geração de emprego e renda"

A preocupação de especialistas sobre os dados do desemprego cresce à medida que o futuro da economia e da pandemia se mostram tão incertos. Diferentemente de 2020, que contou com a injeção de recursos federais - por meio da transferência de renda para famílias e governos - e ainda a aplicação de programas de preservação dos empregos, em 2021, não há, por enquanto, nenhuma garantia de que ações como essas vão se repetir, em maior ou menor grau. 

Diante de recursos minguados, dúvidas em relação ao controle do novo coronavírus  e uma demanda crescente por políticas assistenciais, os novos prefeitos terão de focar em ganhos de produtividade e eficiência. Não é de hoje que a população pede pela qualidade e a boa aplicação dos recursos públicos. Atender a esse anseio talvez não seja uma questão de opção, de agradar mais ou menos o eleitorado, mas de garantir sobrevida à administração municipal e a todos que estão sob o seu guarda-chuva.

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