Acordei, a uma semana da virada do ano, com a sensação de final prematuro. Não que eu quisesse estender este ano por mais tempo. Não é o caso, mas mesmo se fosse essa a pretensão, imagino que, se o ano ganhasse mais cinco meses, esses não durariam mais que dois. Vivemos dias e meses devorados por Cronos, o titã infanticida – ou filicida, que seja – recriado pelo mercado em rotação dobrada.
Mais ávida que titãs mitológicos, a realidade imposta sobre o nosso tempo é a da aceleração mortífera. Corra, não pare. Corra, não pense. Corra, não sinta. Respire rápido. Leia rápido. Descarte logo. Apodreça, adoeça, morra - na véspera da vida.
Entre suas urgências, a sociedade do atropelo rima, em estética desfavorecida de beleza, com a sociedade do desespero. Quando chega o desejo de ontem, já é depois de amanhã. Ele vem extemporâneo na embalagem, traz apenas laços de destempero e desprazer. O presente de Natal foi antecipado em novembro, pela Black Friday. Sem surpresas, as sobras da noite cristã quase sempre são uma terapia familiar forçada.
A voracidade temporal atinge seu ápice nos finais de ano. São dias duais, extremos, de encerramento e começo. A vingança de Cronos para desnortear humanos é retirar desses dias desejos, ainda imaturos, e sobrepor quereres e realizações, empurrando todos nós para um trem descarrilado, que acelera morro abaixo. A humanidade, coitada, sacoleja em algum vagão viajando dopada, anestesiada.
Não é possível parar o tempo, diz a ciência e também diz Cazuza: o tempo não para. Não há botox e nem câmara hiperbárica que resolva. A única forma de parar o tempo é ter estado lá, vivido intensamente o instante, respirado profundamente o momento sentido. Essa é a máquina de teletransporte que já existe para voltar no tempo. Como os sonhos são nosso teletransporte para ver o futuro.
Mas como abrir os olhos e sonhar, se a massa insana grita o tempo todo: acelera, acelera? Quem ousa puxar o freio? De onde virá a calma para permitir-se recordar e sonhar? Reescrever, reeditar. Sem pressa, desta vez.
O tempo da escrita da vida é o da leitura do vivido. Muitas páginas podem ser escritas em poucas horas, em alguns meses, e serão lidas e relidas prazerosamente a vida toda. Como a vida inteira pode ser um amontoado de páginas em branco ou de letras apressadas e ininteligíveis. O tempo é cruel, mas também é brincalhão.
Um dia, em um passado distante, fizeram uma música para mim, chamada "Calma, Aurelice". Acho que eu era acelerada. Acredito que nela haja alguma pista sobre como brincar com o tempo. Provavelmente, eu não estava inteiramente lá, porque não me lembro da letra, mas sempre me lembro desse esquecimento. De lá para cá, para fazer as pazes com o meu tempo, tenho me dedicado a aprender a respirar melhor e me deixar ser, onde estou. É prática sempre inconclusa.
Ps. Se algum leitor generoso achar a letra da música, por gentileza, envie para o meu e-mail.