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Três eventos em 11 de setembro instruem sobre fragilidades e vigor da democracia

Vale ressaltar que, enquanto no Chile a democracia caiu sob tanques bélicos e, nos EUA, ela foi limitada pelo medo, no Brasil, em 11 de setembro de 2025, ela se fortaleceu

Públicado em 

18 set 2025 às 03:30
Arlindo Villaschi

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Arlindo Villaschi

O 11 de setembro registra episódios que indicam a fragilidade da democracia quando confrontada pelas lógicas do império estadunidense, da manipulação política pelos meios de comunicação e pela violência contra a soberania popular. O primeiro ocorreu em 1973, no Chile, com o golpe de Estado que derrubou Salvador Allende. O segundo, em 2001, em Nova York, com a implosão das Torres Gêmeas. O terceiro, no corrente ano de 2025, no Brasil, quando um ex-presidente e militares de alta patente foram julgados e condenados por tentativa de golpe de Estado e atentado contra o Estado democrático de direito.
O 11 de setembro chileno representou uma tragédia para a democracia latino-americana. O presidente Allende buscava implementar reformas estruturais desejadas pelo povo chileno que o elegeu democraticamente em 1970. Dentre essas reformas, destacavam-se a nacionalização da exploração de cobre, a ampliação de direitos sociais e a redistribuição de renda.
Reformas que contrariavam tanto as elites locais, por perdas de privilégios históricos, quanto os Estados Unidos com seu sempre presente temor de contágio comunista, em plena Guerra Fria. Documentos públicos e disponíveis na Biblioteca do Congresso dos EEUU comprovam o papel da CIA e do governo Nixon na desestabilização econômica e no apoio ao golpe liderado por Pinochet. O resultado: 17 anos de ditadura, censura, tortura, desaparecimentos e retrocessos econômicos e sociais.
O golpe no Chile somou-se aos ocorridos no Brasil em 1964, na Argentina em 1976, no Uruguai em 1973 e outros justificados pelo combate a um abstrato perigo comunista. Na prática, foram movimentos para proteger interesses geopolíticos dos EUA e de elites nacionais. Serviram de indicação clara que a democracia só é tolerada pelo império estadunidense e seus asseclas mundo afora, quando não coloca em perigo essas estruturas de poder imperial e locais.
Já o 11 de setembro de 2001 inaugurou uma nova forma de ataque à democracia, agora dentro dos EUA. A queda das Torres Gêmeas em Nova York e o ataque ao Pentágono, em Washington DC, atribuídos de maneira questionável à Al-Qaeda, abriram espaço para políticas de exceção. Pleno de controvérsias quanto à transparência das investigações, o episódio foi catalisador da guerra ao terror fomentada por teorias conspiratórias e potencializado pela indústria cultural, com destaque para os meios de comunicação de massa.
Internamente, o ‘Patriot Act’ permitiu vigilância em massa e restrição de liberdades civis. Externamente, ampliou essas restrições mundo afora e justificou guerras como as no Afeganistão e no Iraque. Todas deflagradas sob hipóteses falsas, como a da existência de armas de destruição em massa, e que tiveram como consequência centenas de milhares de mortos, milhões de refugiados, instabilidade duradoura no Oriente Médio e destruição de patrimônios culturais da humanidade.
O 11 de setembro brasileiro em 2025 difere dos dois anteriores por ter sido momento de inédita afirmação institucional. Vale enfatizar que, pela primeira vez, um ex-presidente e militares de alta patente foram julgados e condenados por tentativa de golpe e por conspirarem contra o Estado democrático de direito.
O julgamento e as condenações representam um lavar de alma daqueles tantos que sempre se colocaram contrários à impunidade de quem atentou contra a democracia através de insurgências mal-sucedidas e de golpes militares que enlutam a história do Brasil.
1ª Turma do STF, durante julgamento de Bolsonaro
Julgamento de Jair Bolsonaro Crédito: Antonio Augusto
Três 11 de setembro que revelam faces distintas de uma mesma disputa. Aquela do embate entre, por um lado, os exercícios de poder que, em nome da segurança, da ordem e de valores cristãos, sacrificam liberdades. E, por outro, a resistência de sociedades que lutam para preservar a soberania popular.
No Chile, custou quase duas décadas de ditadura e uma imensidão de perdas humanas, sociais e econômicas. Nos EUA, abriu caminho para a vigilância extrema e para guerras intermináveis, inclusive as tarifárias e contra migrantes que vêm sendo aprofundadas pelo atual governo Trump. No Brasil, representa a vitória da justiça sobre a tentativa de golpe.
A lição que emerge é clara: liberdade e democracia não se sustentam apenas em práticas passadas e em discursos. Exigem vigilância constante e coragem para enfrentar tanto inimigos externos quanto conspirações internas. Afinal, quando a escada da democracia é chutada, em Santiago, em Nova York ou em Brasília, o que se perde é o direito à cidadania de decidir sobre seus próprios destinos.
Por isso, vale ressaltar que, enquanto no Chile a democracia caiu sob tanques bélicos e, nos EUA, ela foi limitada pelo medo, no Brasil, em 11 de setembro de 2025, ela se fortaleceu. O julgamento e a condenação do grupo que articulou um golpe de Estado e atentou contra o Estado democrático de direito revelam que o país está escrevendo um capítulo distinto em sua história: o da resistência institucional contra o autoritarismo. Que assim seja, por todo o sempre.

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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