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É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras

Pandemia: inclusões necessárias para um novo normal

Uma constatação trazida pela Covid 19 e suas repercussões sociais, econômicas e políticas é a das crescentes exclusões que envolvem a maior parte dos países

Publicado em 15/07/2021 às 02h00
50% dos brasileiros tiveram aumento de gastos durante a pandemia e 38% tiveram impacto na renda,
Do ponto de vista econômico, o primeiro passo é o estabelecimento de uma renda básica de cidadania a ser financiada com um imposto básico de cidadania. Crédito: Towfiqu Barbhuiya/Unsplash

Uma constatação trazida pela Covid-19 e suas repercussões sociais, econômicas e políticas é a das crescentes exclusões que envolvem a maior parte dos países. Ainda que essas exclusões estivessem presentes antes mesmo da pandemia, a convivência com seus efeitos tornou cada vez mais contundente a forma e o conteúdo como formações socioeconômicas mundo afora acumulam dívidas sociais para com sua gente. Ainda que em proporções distintas, é impossível desconsiderar o hiato entre quem tem muito e quem quase nada tem na maioria dos países.

Brasil tem experiência acumulada em processos de inclusão e deve usá-la para cuidar de suas exclusões. Do ponto de vista econômico, o primeiro passo é o estabelecimento de uma renda básica de cidadania a ser financiada com um imposto básico de cidadania. O segundo é incluir no sistema tributário a equidade para com grandes fortunas – acima de 50 milhões de reais –, que passariam a pagar alíquotas progressivas de imposto até um limite de 60%. Também deve ser corrigido a regressividade para com o imposto de rendas – principalmente as referentes a ganhos financeiros.

No campo social, muito pode ser feito através do sistema de educação. Estimular o intercâmbio entre quem estuda no sistema governamental e quem frequenta escolas privadas pode ser um bom começo. A convivência no sistema escolar, da pré-escola ao ensino universitário, pode servir como estímulo à convivência entre estudantes de classes econômicas distintas. Convivência que pode resultar em recuperação do esgarçado tecido social brasileiro.

No aspecto cultural é recomendável ampliar as possibilidades de inclusão na rica cultura nativa e afro-brasileira descendentes de europeus que para o Brasil imigraram após os anos 1860. Os resultados positivos dessa inclusão podem ser avaliados pelo quanto esses descendentes se enriquecem culturalmente ao incorporar práticas de nossos povos originários e dos que aqui foram escravizados. Inúmeros são os exemplos desse enriquecimento na música, na literatura, nas artes, na culinária, nos esportes, na moda.

Por último, mas nem por isso menos importante, a construção de um novo normal no Brasil precisa priorizar a inclusão digital. O necessário afastamento físico durante a pandemia levou ao crescente uso da internet no trabalho, no ensino, na cultura. Mudanças na forma e no conteúdo como as pessoas interagem socialmente nessas e em outras áreas estão aí para ficar. Entendê-las como oportunidade depende do reconhecimento da importância da democratização do acesso às tecnologias da informação e das comunicações.

Democratização que contemple tanto a população de baixa renda quanto aquela que compõe a chamada classe média. Na pandemia ficou mais do que evidente a defasagem do Brasil em inclusão digital nos termos necessários para que o país se torne contemporâneo da sociedade do conhecimento. E nesta, como demonstra a experiência internacional, é fundamental transformar a forma e o conteúdo de funcionamento do sistema de educação e ensino.

Pautar a inclusão econômica, social, cultural e digital no Brasil é tarefa complexa devido ao quanto nossa formação se constituiu historicamente excludente. Complexidade que precisa ser enfrentada para que o aprendizado compulsório durante os tempos de pandemia se torne motivador e instrumental para a construção de um outro país possível.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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