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Paulo Bonates

No tempo em que o Britz Bar era o centro do mundo

Os pontos de encontro morreram também: “A gente se encontrava no Britz”. Não tem mais. Não tinha erro

Publicado em 09 de Junho de 2026 às 03:00

Públicado em 

09 jun 2026 às 03:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Antigamente, todas as batalhas eram travadas no Britz. Praça da antiga Prefeitura de Vitória, lotada. O bar era a central religiosa da paixão e do prazer. Dava suporte de alegria. Agorinha mesmo, no sábado de chuva, o Brasil enfrentou, na pré-Copa de 2026, o time de Elizabeth Taylor, de Cleópatra, de 1954. Ganhamos. Não lhes dou o nome dos jogadores porque não sei. Vamos ficar com as duas instâncias do tempo: no passado vencemos e no futuro venceremos. Como se sabe o presente não existe. 


O desejo futuro e as mortes passadas, vamos conferir o passado, que é mais fácil, acho.

Morreu de amores, portanto, a Praça Costa Pereira. Não pulsa mais. Morreram os habitantes, que iam para lá, para tudo e para nada, o Clube da Madrugada também se foi.


Morreu Jorcel, a barbearia, e sua rima Garcia, um toque de “elegancia” sem o mínimo acento agudo. Os caldos de cana pararam de jorrar sabor e vender o mais precioso vento comestível. A garotada católica, principalmente a Juventude Estudantil católica, os meninos de JEC, batia ponto nas calçadas da Catedral. De vez em quando entravam um a um e davam uma “comungada”, estava feita a mágica cristã.

Britz Bar, no Centro de Vitória
Britz Bar, no Centro de Vitória Arquivo AG

Morreu a Galeria do Café, dos endinheirados, e seus donos passeando ali entre os mortais, além  das  óticas e outras lojinhas bacanas. Morreu a sapataria, antes bar. Morreu a primeira lanchonete do mundo, a Sete, e seus sanduíches marcianos.


Morreram os peixinhos do mar que ficavam em todos os lugares, especialmente na cantiga de Américo Rosa, maior compositor de todos os tempos. 


(Os peixinhos do mar vão para areia sambar…).


O Hotel Império, onde em priscas eras estive hospedado da primeira manhã  que me perdi, ao chegar à capital do Espírito Santo, não perdeu e não perderá a pose.

Havia o engajamento militante.


Os estudantes iam distribuir panfletos de protesto contra a ditadura vigente e fervente e fingiam esquecer o lote de papelotes mensageiros nos bancos. Naquele tempo, era um tal de policial disfarçado correndo atrás dos papelotes... Papelotes no mau sentido.


Os evangélicos promoviam o céu para quem quisesse. Às prostitutas, o inferno do prazer. Os católicos davam uma passada nos dois. Havia o bonde que circulava e oferecia o balaústre. Além do micro-ônibus do Délio Delmaestro que voava para a Praia do Suá. Cadê as casas lindas e grandes, com seis quartos ali por perto ou as ladeiras que estavam na área de influência da Praça: a da Odontologia e a da Favela de Ouro?



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Os pontos de encontro morreram também: “A gente se encontrava no Britz”. Não tem mais.

Não tinha erro.


Até consertador de relógio se escondia do ladinho do teatro. No centro engoliam fogo, mas não engolem mais. Levavam tostões, não levam mais. E o vendedor de amendoim vendia fiado, um cruzeiro, nem um cruzado. Saiu batido, está calado e amuado.


E as meninas que passavam nem olhavam, “tão bonita que elas eram, cabelos lindos como nunca vi, camisa esporte sobre a calça Lee, com ar esnobe de quem nada quer. Lá vai ela e pensa que é mulher”.


Olhando para o futuro da cidade, lá estava o imperador Edgard dos Anjos, criando e criando. 

Momento de emoção. 


Boto a mão no peito, busco o baticum do meu coração, e um leve sorriso de lembrança me aparece no canto da boca.


Dorian Gray, meu cão vira-lata, anda dizendo besteira: Neymar não vai jogar e o Pedro não foi escalado na incansável Seleção Brasileira de Futebol. 


Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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