Os sem-cidades são pessoas expulsas de qualquer possibilidade de vida digna nos territórios que chamamos de urbanos. Gente sem trabalho, sem renda suficiente para garantir alimentação, moradia; sem poder político necessário para garantir transporte, saúde, educação, saneamento. São milhões de cidadãos relegados ao abandono, colocados à margem, sem acesso aos serviços básicos e privados de políticas públicas que poderiam reparar séculos de exclusão econômica, social e política.
Sem cidades também são aqueles que, apesar de recursos e oportunidades, se isolam atrás de muros, câmeras e seguranças. Vivem em guetos de privilegiados, pequenos feudos protegidos de um mundo que imaginam hostil, mas que, na verdade, é apenas diverso. Aceitam transformar o medo em estilo de vida, negando-se à convivência com quem não se encaixa em seus padrões de classe, cor ou cultura.
O resultado é o mesmo: um número crescente de sem-cidades, divididos entre os que não podem pertencer e os que não querem compartilhar. De um lado, os descartados pelo mercado, cujas necessidades vitais são tratadas como objetos de caridade. De outro, os que buscam uma falsa sensação de segurança em condomínios murados, shoppings climatizados, carros blindados. Ambos, cada qual à sua maneira, alimentam o esgarçamento do tecido social.
Cidades não sobrevivem sem mistura, sem encontro, sem conflito criador. Quando diferentes deixam de se cruzar nas ruas, nos transportes, nas praças, nos serviços comuns, a cidade deixa de pulsar. Perde sua força transformadora, seu poder de gerar riqueza coletiva, sua capacidade de mobilizar solidariedade e ação política. O que sobra são espaços segmentados e frágeis, diante da emergência climática, da violência cotidiana e da corrosão das democracias.
O direito à cidade é inseparável do direito à vida. É nele que enfrentaremos as crises mais urgentes do nosso tempo — da devastação ambiental ao aumento da desigualdade; do individualismo predatório ao racismo estrutural. Não haverá saída para a emergência climática, nem reconstrução de vínculos sociais, sem cidades abertas, inclusivas, solidárias.
Esse debate não pode continuar restrito a universidades ou a círculos técnicos. É tema que precisa ecoar nas rua, sindicatos, movimentos de bairro, de juventude, de mulheres, de povos originários, de quem resiste nas periferias e de quem se protege em condomínios. Precisa se transformar em temas de partidos políticos, de representações empresariais e de profissionais liberais.
Cidades precisam ser vistas como territórios diversos, onde o enfrentamento de dívidas do passado se torna ações no presente, com vistas a um outro futuro possível. É nelas que a vida se organiza sem cessar, que a política se materializa, que a economia se dinamiza, que a cultura pulsa. É nela que crises como as econômicas e sociais, por um lado, e a emergência climática e a desigualdade social, por outro, cobram seus preços mais cruéis.
Romper com a lógica que fragmenta e expropria a vida e o território no cotidiano urbano passa, necessariamente, por assumir o direito à cidade como bandeira coletiva. Tanto dos que dela são marginalizados, como se escória social fossem, quanto daqueles que nela buscam perpetuar privilégios sociais, econômicos e políticos.
Isso exige ampliar e compartilhar espaços de decisão, disputar orçamentos públicos, fortalecer movimentos sociais e reinventar formas e conteúdos de convivência. Conteúdos e formas que façam das diferenças não um abismo mas a base para a construção de uma comunidade viva por sua diversidade e pluralidade de oportunidades, para o exercício da cidadania plena.
Construir cidades abertas, justas e solidárias é tarefa para quem, por um lado, reconhece direitos que foram negados a seus antepassados e que querem exercê-los no presente e ampliá-los para descendentes. E, por outro, para quem é sensível às carências do próximo e às mazelas econômicas e ambientais, historicamente acumuladas.
Propor e operacionalizar cidades fundadas no respeito à pluralidade, à diversidade social e política para quem nelas vive, e na valorização da sustentabilidade socioambiental, é chamado urgente para quem se dá conta de que o futuro só será possível se for comum e compartilhado.