A aventada instalação de um hub logístico em Guarapari reacende um debate fundamental sobre o modelo de desenvolvimento que se pretende para o Espírito Santo como um todo, com destaque para o Litoral Sul.
O discurso fácil de sempre de defensores de empreendimentos de grande porte como vetores de crescimento exige reflexão crítica da sociedade capixaba e dos poderes que devem representá-la.
Por um lado, a questão central é: qual o desenvolvimento desejado para o litoral do Espírito Santo, como um todo e, de forma específica, para sua extensão Sul? Por outro, vale questionar a ideia segundo a qual grandes empreendimentos logísticos são sinônimo de progresso.
Galpões gigantescos, intenso fluxo de caminhões e ampliação da infraestrutura de transporte são, frequentemente, anunciados como sinais de modernidade. Existem evidências contrárias a esses anúncios.
Experiências observadas em diversas partes do mundo mostram que os custos socioambientais desses empreendimentos são ignorados ou minimizados nos discursos de seus proponentes e de autoridades governamentais que os defendem e apoiam.
Centros logísticos de grande porte exigem extensas áreas para armazenamento, circulação de cargas e expansão viária. Consequentemente, aumentam a impermeabilização do solo, a supressão de vegetação, a emissão de poluentes atmosféricos e a poluição sonora. Também provocam impactos sobre a mobilidade urbana e alteram, significativamente, a paisagem das regiões onde são implantados.
O contraponto oferecido por esses empreendimentos é o de crescimento que nunca se concretiza de forma equilibrada. Empregos gerados estão longe de compensar os prejuízos ambientais e a perda de qualidade de vida das comunidades afetadas. O resultado é um território mais pressionado, mais urbanizado e menos capaz de sustentar atividades econômicas de longo prazo.
No caso de Guarapari, os riscos são ainda mais evidentes. A região possui vocação histórica e natural ligada ao turismo, ao lazer e à conservação ambiental, já prejudicadas por investimentos logísticos no passado, como os da Samarco em Anchieta.
Suas praias, paisagens costeiras e ecossistemas naturais constituem um patrimônio que pode gerar mais e melhor distribuição de renda, oferta de empregos e oportunidades para milhares de pessoas. Trata-se de uma formação socioeconômica que precisa valorizar, justamente, tudo aquilo que um grande complexo logístico tende a comprometer: qualidade ambiental, beleza cênica e valorização dos espaços naturais.
Inexiste a possibilidade de convivência harmoniosa entre um território com recursos naturais exuberantes, que podem atrair visitantes e propiciar melhores condições econômicas para sua população, e centros de distribuição e operações logísticas intensivas.
São atividades com lógicas distintas e incompatíveis. Enquanto o turismo depende da preservação da paisagem e da qualidade da experiência ambiental, a logística pesada demanda infraestrutura que, inevitavelmente, modifica essas características.
É importante ressaltar que a região do Litoral Sul do Estado abriga áreas de comprovada relevância socioambiental, que precisam ser protegidas e valorizadas. As unidades de conservação terrestres e marinhas existentes no litoral de Guarapari desempenham papel essencial na preservação da biodiversidade, na proteção dos recursos hídricos, na manutenção da pesca artesanal e na adaptação às mudanças climáticas.
Esses espaços representam um patrimônio coletivo que não pode ser sacrificado em nome de projetos desenhados e operados segundo a lógica do lucro rápido do capital especulativo.
O verdadeiro desenvolvimento do litoral capixaba exige o reconhecimento, antes tarde do que nunca, da importância do fortalecimento da economia socioambientalmente sustentável. Isso implica na necessidade de ampliar o turismo de natureza; incentivar a pesquisa científica; fortalecer a educação ambiental e a conservação dos ecossistemas costeiros. Essas são atividades capazes de gerar riqueza, sem destruir os recursos que as sustentam.
Por isso, a discussão sobre o hub logístico em Guarapari precisa ir muito além dos interesses de poucos aplicadores financeiros e de pequenos agrupamentos de políticos locais. O próprio momento eleitoral atual deve propiciar uma discussão aprofundada sobre os caminhos de desenvolvimento desejados para o Espírito Santo.
Um deles é o já trilhado nas últimas cinco décadas, que apostou na ocupação intensiva do litoral por atividades que geraram impactos sociais, econômicos e ambientais negativos, quase que irreversíveis.
O outro amplia o reconhecimento que, mais do que nunca, há de se valorizar as maiores riquezas do território, quais sejam a cultura de seu povo e seus atributos naturais.
O litoral capixaba, de maneira geral, e Guarapari, de forma específica, não precisam continuar a equivocada saga, ainda presente em mentes próximas aos poderes constituídos, de tudo se transformar em corredor logístico.
Muito pelo contrário, o território clama por lideranças políticas que ousem torná-lo referência de patrimônio socioambiental, de qualidade de vida e de desenvolvimento sustentável para futuras gerações.