A recém-anunciada encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, é importante documento político e moral nesta conturbada etapa do século XXI. Para além de colocar o peso de sua estatura política no debate sobre os riscos da inteligência artificial, o papa também realizou algo raro na longa história da Igreja Católica Romana: reconhecer explicitamente sua responsabilidade na legitimação da escravidão de milhões de africanos.
A Magnifica Humanitas recorda que progresso técnico como o incorporado nos processos de automação chamado Inteligência Artificial (IA) está longe de equivaler a progresso moral. A humanidade já produziu ciência sofisticada para organizar navios negreiros, campos de concentração e bombas nucleares. Agora produz algoritmos capazes de vigiar populações inteiras, manipular consciências e automatizar guerras.
Ao pedir perdão pela escravidão e alertar contra uma inteligência artificial sem limites éticos e políticos, Leão XIV indaga ao Ocidente: seremos capazes de controlar nossas próprias criações antes que elas passem a controlar a própria ideia de humanidade?
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Mais do que apenas indagar, ele se soma a outras lideranças políticas, científicas e tecnológicas ao defender marcos jurídicos internacionais, vigilância pública independente e controle democrático sobre a IA.
Em contraste com o discurso predominante no Vale do Silício e seus satélites em outros países — que frequentemente trata qualquer regulação como obstáculo ao progresso —, o papa explicita uma verdade elementar: tecnologia sem controle social serve majoritariamente aos poucos mais fortes e detentores de poderes políticos, econômicos e tecnológicos.
A história da escravidão ilustra bem isso. O avanço técnico das navegações, das armas e das finanças globais não produziu humanismo; produziu impérios coloniais que trataram seres humanos como se mercadoria fossem.
A analogia está longe de ser um exagero. Assim como a modernidade europeia usou corpos africanos como meros insumos de produção, o capitalismo digital ameaça converter experiências humanas em dados exploráveis.
A pessoa deixa de ser sujeito para tornar-se ativo informacional. Assim, a advertência do Vaticano dialoga e se soma a alertas já explicitados em várias instâncias por filósofos, juristas, educadores e formuladores de políticas públicas.
É desejável que a encíclica de Leão XIV seja promissora nas consequências pastorais e políticas que podem ser desencadeadas em territórios concretos onde a Igreja ainda mantém forte presença social.
No caso brasileiro, por exemplo, é esperado que as palavras do papa estimulem dioceses, paróquias, toda uma rede de escolas católicas e pastorais sociais a promover amplas conversas públicas. Compartilhamento público de debates sobre os dois grandes temas abordados pelo documento: a herança histórica da escravidão e os riscos contemporâneos da inteligência artificial sem controle democrático.
O Brasil possui condições particularmente favoráveis para esse protagonismo. Nenhum país das Américas recebeu tantos africanos escravizados. Nenhum convive até hoje com desigualdades raciais tão profundas e naturalizadas.
Ao mesmo tempo, poucas instituições possuem capilaridade territorial comparável à da Igreja Católica Romana que se faz presente, e pode ser mais atuante, nas periferias urbanas, pequenas cidades, comunidades tradicionais e grandes centros econômicos.
A Magnifica Humanitas é uma oportunidade histórica para que dioceses brasileiras assumam papel ativo na reconstrução da memória nacional. Elas podem apoiar e estimular iniciativas concretas de educação histórica, valorização da cultura afro-brasileira e enfrentamento das desigualdades estruturais herdadas da escravidão.
Apoio e estímulo de dioceses a iniciativas concretas, por um lado, através do fomento a fóruns públicos, seminários e ciclos de debates. Por outro, através da construção de pactos territoriais envolvendo governos locais, universidades, movimentos negros e indígenas, sindicatos, setor empresarial e organizações da sociedade civil.
A questão central não seria apenas revisitar o passado, mas perguntar quais políticas públicas ainda são necessárias para reparar séculos de exclusão e violência.
Para tanto, há que ampliar ações já existentes de valorização da contribuição africana para a formação sócio-econômica-cultural-
Há também que acelerar e ampliar medidas práticas de inclusão econômica, preservação de patrimônios históricos afro-brasileiros, fortalecimento da educação antirracista e combate à violência que continua atingindo desproporcionalmente a população negra.
Lógica semelhante precisa ser adotada no debate sobre IA. A sensibilidade sobre riscos apontados pelo papa precisa ir muito além de alertas por especialistas em tecnologia ou círculos acadêmicos.
Trata-se de tema profundamente humano e social e por isso precisa ganhar relevância na agenda política da sociedade e das instituições.
Nesse ponto, as dioceses devem passar a ser espaços de mediação ética e política. Em vez de aceitar passivamente a narrativa de inevitabilidade tecnológica difundida pelos senhores feudais tecnológicos e seus asseclas no Ocidente, elas podem, inspiradas na Magnifica Humanitas, ajudar a construir uma cultura pública de questionamento.
Questionamentos legitimamente democráticos sobre quem controla os dados, quais interesses orientam os algoritmos e quais limites devem ser impostos ao poder tecnológico concentrado em poucas poucas empresas concentradas nos Estados Unidos.
Mais importante ainda é estimular processos permanentes de diálogo territorial entre poder público, universidades, empreendedores, trabalhadores e movimentos sociais.
O desafio colocado pela inteligência artificial não será resolvido apenas por governos ou empresas. Ele exigirá pactos sociais amplos sobre trabalho, educação, privacidade, soberania nacional e direitos humanos.
Há uma coerência profunda entre os dois temas abordados pela encíclica. O reconhecimento da escravidão recorda o que acontece quando estruturas econômicas desumanizam pessoas em nome do lucro imediato e do crescimento a curto prazo.
O alerta sobre inteligência artificial busca impedir que novas formas de desumanização, agora sustentadas por acelerados avanços tecnológicos, se consolidem sob aparência de inovação inevitável.
Difícil identificar contribuição mais relevante que a Igreja Católica Romana no Brasil possa oferecer ao país neste momento histórico: ajudar a transformar memória em responsabilidade pública e tecnologia em objeto de deliberação democrática.
Não como dona da verdade, mas como instituição capaz de reunir atores diversos em torno de perguntas fundamentais sobre dignidade humana, justiça histórica e futuro coletivo.