Sair
Assine
Entrar

Arlindo Villaschi

Dívida histórica com escravizados e alerta sobre IA: as sinalizações importantes do papa

Há uma coerência profunda entre os dois temas abordados pela encíclica Magnifica Humanitas

Publicado em 28 de Maio de 2026 às 02:30

Públicado em 

28 mai 2026 às 02:30
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

A recém-anunciada encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, é importante documento político e moral nesta conturbada etapa do século XXI.  Para além de colocar o peso de sua estatura política no  debate sobre os riscos da inteligência artificial, o papa também realizou algo raro na longa história da Igreja Católica Romana: reconhecer explicitamente sua responsabilidade  na legitimação da escravidão de milhões de africanos.


A Magnifica Humanitas recorda que progresso técnico como o incorporado nos processos de automação chamado Inteligência Artificial (IA) está longe de equivaler a progresso moral. A humanidade já produziu ciência sofisticada para organizar navios negreiros, campos de concentração e bombas nucleares. Agora produz algoritmos capazes de vigiar populações inteiras, manipular consciências e automatizar guerras.


Ao pedir perdão pela escravidão e alertar contra uma inteligência artificial sem limites éticos e políticos, Leão XIV indaga ao Ocidente: seremos capazes de controlar nossas próprias criações antes que elas passem a controlar a própria ideia de humanidade?

Veja Também 

Imagem BBC Brasil

O recado do papa Leão 14 sobre a inteligência artificial em seu primeiro 'cartão de visitas' ao completar um ano de pontificado

Imagem de destaque

O que as roupas e adereços usados pelo papa Leão 14 revelam sobre seu estilo e sua política

Imagem BBC Brasil

Papa Leão 14 critica 'tiranos' que gastam bilhões em guerras, após ataque de Trump

Mais do que apenas indagar, ele se soma a outras lideranças políticas, científicas e tecnológicas ao defender marcos jurídicos internacionais, vigilância pública independente e controle democrático sobre a IA.


Em contraste com o discurso predominante no Vale do Silício e seus satélites em outros países — que frequentemente trata qualquer regulação como obstáculo ao progresso —, o papa explicita uma verdade elementar: tecnologia sem controle social serve majoritariamente aos poucos mais fortes e detentores de poderes políticos, econômicos e tecnológicos.  


A história da escravidão ilustra bem isso. O avanço técnico das navegações, das armas e das finanças globais não produziu humanismo; produziu impérios coloniais que trataram  seres humanos como se mercadoria fossem.


A analogia está longe de ser um exagero. Assim como a modernidade europeia usou corpos africanos como meros insumos de produção, o capitalismo digital ameaça converter experiências humanas em dados exploráveis. 


A pessoa deixa de ser sujeito para tornar-se ativo informacional. Assim, a advertência do Vaticano dialoga e se soma a alertas já explicitados em várias instâncias por filósofos, juristas, educadores e formuladores de políticas públicas.


É desejável que a encíclica de Leão XIV seja promissora nas consequências pastorais e políticas que podem ser  desencadeadas em territórios concretos onde a Igreja ainda mantém forte presença social. 


No caso brasileiro, por exemplo, é esperado que as palavras do papa estimulem dioceses, paróquias, toda uma rede de escolas católicas e pastorais sociais a promover amplas conversas públicas. Compartilhamento público de debates sobre os dois grandes temas abordados pelo documento: a herança histórica da escravidão e os riscos contemporâneos da inteligência artificial sem controle democrático.


O Brasil possui condições particularmente favoráveis para esse protagonismo. Nenhum país das Américas recebeu tantos africanos escravizados. Nenhum convive até hoje com desigualdades raciais tão profundas e naturalizadas. 


Ao mesmo tempo, poucas instituições possuem capilaridade territorial comparável à da Igreja Católica Romana que se faz presente, e pode ser mais atuante, nas periferias urbanas, pequenas cidades, comunidades tradicionais e grandes centros econômicos.


A Magnifica Humanitas é uma oportunidade histórica para que dioceses brasileiras assumam papel ativo na reconstrução da memória nacional. Elas podem apoiar e estimular iniciativas concretas de educação histórica, valorização da cultura afro-brasileira e enfrentamento das desigualdades estruturais herdadas da escravidão.


Apoio e estímulo de dioceses a iniciativas concretas, por um lado, através do fomento a fóruns públicos, seminários e ciclos de debates.  Por outro, através da construção de pactos territoriais envolvendo governos locais, universidades, movimentos negros e indígenas, sindicatos, setor empresarial e organizações da sociedade civil. 


A questão central não seria apenas revisitar o passado, mas perguntar quais políticas públicas ainda são necessárias para reparar séculos de exclusão e violência.


Para tanto, há que ampliar ações já existentes de valorização da contribuição africana para a formação sócio-econômica-cultural-espiritual do Brasil. 


Há também que acelerar e ampliar  medidas práticas de inclusão econômica, preservação de patrimônios históricos afro-brasileiros, fortalecimento da educação antirracista e combate à violência que continua atingindo desproporcionalmente a população negra.

Papa Leão XIV
Papa Leão XIV REUTERS/Guglielmo Mangiapane

Lógica semelhante precisa ser adotada no debate sobre IA. A sensibilidade sobre riscos apontados pelo papa precisa ir muito além de alertas por especialistas em tecnologia ou círculos acadêmicos. 


Trata-se de tema profundamente humano e social e por isso precisa ganhar relevância na agenda política da sociedade e das instituições.


Nesse ponto, as dioceses devem passar a ser espaços de mediação ética e política. Em vez de aceitar passivamente a narrativa de inevitabilidade tecnológica difundida pelos senhores feudais tecnológicos e seus asseclas no Ocidente, elas podem, inspiradas na Magnifica Humanitas, ajudar a construir uma cultura pública de questionamento. 


Questionamentos legitimamente democráticos sobre quem controla os dados, quais interesses orientam os algoritmos e quais limites devem ser impostos ao poder tecnológico concentrado em poucas poucas empresas concentradas nos Estados Unidos.

Veja Também 

Shakira se apresentou no Rio de Janeiro

Candidatos, tem lição da Shakira para vocês

Trânsito interditado na Terceira Ponte devido a protesto de trabalhadores da saúde

Cidades capixabas: elementos para a agenda eleitoral em 2026

Alliança, casados, idosos

Políticas públicas para idosos: pauta para o debate eleitoral

Mais importante ainda é estimular processos permanentes de diálogo territorial entre poder público, universidades, empreendedores, trabalhadores e movimentos sociais. 


O desafio colocado pela inteligência artificial não será resolvido apenas por governos ou empresas. Ele exigirá pactos sociais amplos sobre trabalho, educação, privacidade, soberania nacional e direitos humanos.


Há uma coerência profunda entre os dois temas abordados pela encíclica. O reconhecimento da escravidão recorda o que acontece quando estruturas econômicas desumanizam pessoas em nome do lucro imediato e do crescimento a curto prazo. 


O alerta sobre inteligência artificial busca impedir que novas formas de desumanização, agora sustentadas por acelerados avanços tecnológicos, se consolidem sob aparência de inovação inevitável.


Difícil identificar contribuição mais relevante que a Igreja Católica Romana no Brasil possa oferecer ao país neste momento histórico: ajudar a transformar memória em responsabilidade pública e tecnologia em objeto de deliberação democrática. 


Não como dona da verdade, mas como instituição capaz de reunir atores diversos em torno de perguntas fundamentais sobre dignidade humana, justiça histórica e futuro coletivo.

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Casa aconchegante: 6 dicas de iluminação para deixar o lar mais confortável
MPES deflagra Operação Staged II em Cachoeiro de Itapemirim
Operação que apura falso confronto ligado a homicídio cumpre mandados em Cachoeiro
Imagem de destaque
Grande munsterlander: conheça as características do cachorro dessa raça

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados