Entre as décadas de 1960 e 1990, as cidades capixabas - principalmente as que compõem a Grande Vitória - enfrentaram desafios majoritariamente demográficos, impulsionados por intensos fluxos migratórios do campo para a cidade. Esse processo esteve ligado à erradicação de cafezais e à industrialização acelerada, com o advento dos Grandes Projetos nos anos 1970.
Como resultado, houve crescimento acelerado e desordenado, tanto da Grande Vitória, como de cidades de porte médio, a exemplo de Cachoeiro de Itapemirim, Colatina e Linhares. A principal dificuldade era absorver, rapidamente, grandes contingentes populacionais, o que levou à expansão de periferias com pouca ou nenhuma infraestrutura, com falta de saneamento básico, moradia precária e demais serviços públicos insuficientes.
O precário planejamento urbano não conseguiu acompanhar o ritmo daquele crescimento, gerando desigualdades espaciais que persistem até hoje.
Nesse período, o foco das políticas públicas era, em grande parte, quantitativo: construir habitações para quem recebia mais de 3 salários mínimos mensais, ampliar a rede viária, priorizada para o automóvel, e fornecer serviços básicos para uma população em expansão.
No entanto, essas respostas foram frequentemente tardias e insuficientes, contribuindo para a intensificação da segregação socioespacial. Assim, as cidades se estruturaram de forma desigual, com bairros de renda média e alta melhor equipados, e periferias marcadas pela carência e exclusão.
No presente, embora os desafios demográficos ainda existam, eles assumem outra configuração. O crescimento populacional é mais lento, mas as desigualdades herdadas do passado permanecem intensas. Ao mesmo tempo, surgem novos desafios, mais complexos e interligados.
A crise climática, por exemplo, impõe a necessidade, por um lado, de repensar o uso do solo urbano, de reduzir emissões e de adaptar as cidades para lidarem com eventos extremos, como enchentes e ondas de calor.
Por outro lado, há de se reconhecer que essa crise, a exemplo de tantas outras, afeta mais intensamente quem tem menos. Isso exige planejamento de longo prazo e integração entre políticas ambientais e urbanas.
Além disso, a mobilidade urbana tornou-se um eixo central. Diferentemente do passado, quando a prioridade era expandir vias para automóveis, hoje há uma demanda por sistemas de transporte mais sustentáveis, acessíveis e eficientes, com transporte público de qualidade, ciclovias e incentivo à mobilidade ativa.
Esse desafio envolve, não apenas infraestrutura, mas também mudança cultural, de mentalidade, e redução das desigualdades no acesso à cidade.
Outro aspecto fundamental é a inclusão social. As cidades capixabas precisam, cada vez mais, responder às justas demandas de uma população diversa, considerando gênero, raça, idade, deficiências, renda e diferentes formas de viver e ocupar o território.
Isso implica na necessidade de políticas públicas sensíveis à pluralidade, que promovam equidade no acesso a serviços, como os de saúde e educação; que ofereçam oportunidades para geração de emprego e renda; que promovam o acesso à moradia digna e a espaços públicos voltados para as artes e ao lazer.
Em comparação com o passado, os desafios atuais são menos centrados na quantidade e mais na qualidade e na sustentabilidade do crescimento das cidades, de todos os portes. Se antes o problema era ‘acomodar’ a população, hoje o objetivo precisa ser o de garantir que as cidades capixabas funcionem de forma justa, resiliente e inclusiva.
Isso exige não apenas investimentos, mas também governança participativa, integrada e capaz de lidar, por um lado, com questões complexas e interdependentes. E, por outro, com o protagonismo crescente de parcelas consideráveis da população marginalizada no passado e que querem ter seus direitos reconhecidos.
Assim, as cidades capixabas passaram, de um cenário de expansão acelerada e desordenada, para um contexto em que é necessário corrigir desigualdades históricas, ao mesmo tempo em que se enfrentam novos desafios globais. Também passaram de uma situação de precariedade de recursos estaduais e municipais para uma outra, em que os recursos existem, mas exigem redefinições de prioridades.
A capacidade de responder de forma adequada às diferentes dimensões do exercício pleno da cidadania precisa ser pautada no debate eleitoral de 2026. Quem se propõe a disputar e ocupar cargos eletivos nos planos federal e estadual, deve ser questionado e cobrado, tanto sobre o entendimento dessas dimensões, quanto sobre os encaminhamentos necessários e possíveis para elas.
Mais do que nunca, o exercício do voto precisa responder aos desafios da democracia na atualidade. São desafios que vão muito além do direito de votar, e exigem considerar direitos sociais, culturais e políticos que levem em conta as dívidas históricas e as assimetrias de como elas afetam a população de forma marcante nas cidades.