Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Arlindo Villaschi

Cidades capixabas: elementos para a agenda eleitoral em 2026

Mais do que nunca, o exercício do voto precisa responder aos desafios da democracia na atualidade

Publicado em 30 de Abril de 2026 às 02:30

Públicado em 

30 abr 2026 às 02:30
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

Entre as décadas de 1960 e 1990, as cidades capixabas - principalmente as que compõem a Grande Vitória - enfrentaram desafios majoritariamente demográficos, impulsionados por intensos fluxos migratórios do campo para a cidade. Esse processo esteve ligado à erradicação de cafezais e à industrialização acelerada, com o advento dos Grandes Projetos nos anos 1970.


Como resultado, houve crescimento acelerado e desordenado, tanto da Grande Vitória, como de cidades de porte médio, a exemplo de Cachoeiro de Itapemirim, Colatina e Linhares. A principal dificuldade era absorver, rapidamente, grandes contingentes populacionais, o que levou à expansão de periferias com pouca ou nenhuma infraestrutura, com falta de saneamento básico, moradia precária e demais serviços públicos insuficientes. 


O precário planejamento urbano não conseguiu acompanhar o ritmo daquele crescimento, gerando desigualdades espaciais que persistem até hoje.

Veja Também 

Alliança, casados, idosos

Políticas públicas para idosos: pauta para o debate eleitoral

Imagem de destaque

A Guarderia é apenas ponta do iceberg

Imagem de destaque

Celso Amorim para ajudar a entender o mundo em carne viva

Nesse período, o foco das políticas públicas era, em grande parte, quantitativo: construir habitações para quem recebia mais de 3 salários mínimos mensais, ampliar a rede viária, priorizada para o automóvel, e fornecer serviços básicos para uma população em expansão. 


No entanto, essas respostas foram frequentemente tardias e insuficientes, contribuindo para a intensificação da segregação socioespacial. Assim, as cidades se estruturaram de forma desigual, com bairros de renda média e alta melhor equipados, e periferias marcadas pela carência e exclusão.


No presente, embora os desafios demográficos ainda existam, eles assumem outra configuração. O crescimento populacional é mais lento, mas as desigualdades herdadas do passado permanecem intensas. Ao mesmo tempo, surgem novos desafios, mais complexos e interligados.


A crise climática, por exemplo, impõe a necessidade, por um lado, de repensar o uso do solo urbano, de reduzir emissões e de adaptar as cidades para lidarem com eventos extremos, como enchentes e ondas de calor. 


Por outro lado, há de se reconhecer que essa crise, a exemplo de tantas outras, afeta mais intensamente quem tem menos. Isso exige planejamento de longo prazo e integração entre políticas ambientais e urbanas.


Além disso, a mobilidade urbana tornou-se um eixo central. Diferentemente do passado, quando a prioridade era expandir vias para automóveis, hoje há uma demanda por sistemas de transporte mais sustentáveis, acessíveis e eficientes, com transporte público de qualidade, ciclovias e incentivo à mobilidade ativa. 


Esse desafio envolve, não apenas infraestrutura, mas também mudança cultural, de mentalidade, e redução das desigualdades no acesso à cidade.

Trânsito interditado na Terceira Ponte devido a protesto de trabalhadores da saúde
Trânsito Carlos Alberto Silva

Outro aspecto fundamental é a inclusão social. As cidades capixabas precisam, cada vez mais, responder às justas demandas de uma população diversa, considerando gênero, raça, idade, deficiências, renda e diferentes formas de viver e ocupar o território. 


Isso implica na necessidade de políticas públicas sensíveis à pluralidade, que promovam equidade no acesso a serviços, como os de saúde e educação; que ofereçam oportunidades para geração de emprego e renda; que promovam o acesso à moradia digna e a espaços públicos voltados para as artes e ao lazer.


Em comparação com o passado, os desafios atuais são menos centrados na quantidade e mais na qualidade e na sustentabilidade do crescimento das cidades, de todos os portes. Se antes o problema era ‘acomodar’ a população, hoje o objetivo precisa ser o de garantir que as cidades capixabas funcionem de forma justa, resiliente e inclusiva. 


Isso exige não apenas investimentos, mas também governança participativa, integrada e capaz de lidar, por um lado, com questões complexas e interdependentes.  E, por outro, com o protagonismo crescente de parcelas consideráveis da população marginalizada no passado e que querem ter seus direitos reconhecidos.


Assim, as cidades capixabas passaram, de um cenário de expansão acelerada e desordenada, para um contexto em que é necessário corrigir desigualdades históricas, ao mesmo tempo em que se enfrentam novos desafios globais. Também passaram de uma situação de precariedade de recursos estaduais e municipais para uma outra, em que os recursos existem, mas exigem redefinições de prioridades.


A capacidade de responder de forma adequada às diferentes dimensões do exercício pleno da cidadania precisa ser pautada no debate eleitoral de 2026. Quem se propõe a disputar e ocupar cargos eletivos nos planos federal e estadual, deve ser questionado e cobrado, tanto sobre o entendimento dessas dimensões, quanto sobre os encaminhamentos necessários e possíveis para elas.   


Mais do que nunca, o exercício do voto precisa responder aos desafios da democracia na atualidade. São desafios que vão muito além do direito de votar, e exigem considerar direitos sociais, culturais e políticos que levem em conta as dívidas históricas e as assimetrias de como elas afetam a população de forma marcante nas cidades.

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Rodrigo Pimentel, Thaís, Paula e Carlos Eduardo Ribeiro Lemos
Vitória foi palco encontro nacional de segurança e combate ao crime organizado; veja fotos
Fórum Criminal de Vitória
Dois júris para líder criminoso do TCP, um deles por morte na na Ilha do Frade
No curso do processo, Wilson Rodrigues Nascimento desistiu de tentar retornar ao seminário
Diocese no ES terá que indenizar ex-seminarista por danos morais

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados