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Cenário global

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Os EUA pregam liberalização econômica ao mundo, mas seguem fortalecendo o Estado e protegendo suas indústrias; ao expor essa hipocrisia, o Brasil tem a chance de liderar uma nova ordem internacional mais justa e multipolar

Publicado em 16 de Outubro de 2025 às 03:30

Públicado em 

16 out 2025 às 03:30
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

É comprovadamente falsa a ideia de que os países, hoje desenvolvidos, prosperaram seguindo a cartilha do neoliberalismo apologista da liberalização, desregulação e abertura de mercados. A história mostra que países como a Inglaterra, a Alemanha, o Japão e, com destaque, os Estados Unidos construíram sua força econômica sem qualquer apego às chamadas forças de mercado.
Pelo contrário, esses países se tornaram potências econômicas desenhando e operacionalizando políticas de proteção alfandegária, subsídios à indústria nascente, investimentos estatais em infraestrutura e até práticas pouco ortodoxas de apropriação tecnológica. Somente após terem assumido e reconhecido seus papeis de potências, passaram a defender o livre comércio como dogma universal. Dogma este que busca, desde sempre, criar obstáculos para que outros países trilhem seus próprios caminhos de prosperidade e autonomia. 
Os estadunidenses vão às urnas nesta terça-feira (3) para eleger seu presidente: o republicano e atual mandatário Donald Trump ou o democrata Joe Biden.
Tanto Trump quanto Biden repetem o que tem sido a norma de condução do governo dos EUA no que se refere à economia Crédito: Montagem: A Gazeta
A experiência recente dos Estados Unidos traz evidências contundentes sobre essa busca de criar obstáculos para a autonomia de países. Durante a presidência de Donald Trump, a retórica liberal deu lugar a um nacionalismo econômico agressivo. Com o argumento de proteger empregos e resgatar o que muitos estadunidenses acreditam ser a grandeza americana, seu governo impõe tarifas pesadas em produtos para lá exportados. Tanto sobre seu principal competidor econômico – a China – quanto sobre outros parceiros históricos, como o Brasil, a União Europeia, o Japão, a Coreia do Sul e a Índia, dentre outros.
Os EUA buscam estimular a produção local em setores onde suas empresas, há muito, perderam a capacidade de competir com produtores estrangeiros, como os chineses, indianos, brasileiros, japoneses e coreanos. Concedem subsídios diretos a agricultores afetados por suas retaliações comerciais, criam barreiras tecnológicas explícitas contra empresas estrangeiras e buscam forçar empresas do próprio país a levar seus centros de pesquisa e de produção de volta para o território dos EUA.
Trump escancara uma contradição que se amplia, desde meados do século passado e que, sob sua tutela, deixa nenhuma margem de dúvida sobre como pretende manter seus interesses imperialistas. Desde meados do século passado, enquanto era imposta a liberalização a países em desenvolvimento, por meio de instituições como o FMI, o Banco Mundial e a OMC, os Estados Unidos recorrem, sem pudor, a políticas protecionistas e intervencionistas sempre que seus interesses estratégicos estão em jogo.
Registre-se que políticas protecionistas e intervencionistas estão longe de ser uma exclusividade trumpista. Para focar apenas no caso de seu antecessor, o democrata Joe Biden pouco se afastou dessa lógica. Embora apresentasse uma retórica mais diplomática, seu governo deu sequência a políticas industriais robustas. O Inflation Reduction Act e o CHIPS and Science Act destinaram centenas de bilhões de dólares para impulsionar a produção doméstica de semicondutores, energias renováveis e veículos elétricos. Essas medidas foram apresentadas como combate à crise climática e estímulo à inovação, mas que foram, na prática, formas de reforçar a posição dos EUA em cadeias produtivas estratégicas e de buscar frear avanços de concorrentes como a China.
Assim, tanto Trump quanto Biden, repetem o que tem sido a norma de condução do governo dos EUA no que se refere à economia. Por um lado, a defesa da abertura comercial e da disciplina fiscal para os outros. Por outro, a proteção vigorosa de seus interesses nacionais, inclusive com a utilização de poderio militar, de lawfare, e do poder midiático de sua indústria cultural e de suas plataformas digitais.
Tal norma de condução, que tem sido reiterada em todas as administrações do governo estadunidense e escancarada por Trump, precisa ser contestada por todos os países, inclusive e principalmente aqueles historicamente parceiros dos EUA.
Essa contestação merece também um amplo debate social e há que se colocar no centro do debate os efeitos danosos do neoliberalismo. Efeitos que incluem o esgarçamento do tecido social, inclusive nos EUA e na União Europeia; a subordinação do capital produtivo à lógica dos feudos tecnológicos e gestores de fundos de investimentos; e o crescente fosso entre os poucos que ganham muito e a imensa maioria que, no máximo, sobrevive.
O debate em nível mundial pode se inspirar e se aprofundar a partir da reação do governo brasileiro à maneira Trump de fazer política externa. Sob a internacionalmente reconhecida liderança do Presidente Lula, o Brasil, de forma acertada, por um lado, denuncia as agressões estadunidenses ao ordenamento econômico internacional. E, por outro, reafirma a necessidade de reformas profundas nas instituições multilaterais.
Ao apostar no fortalecimento dos BRICS e no diálogo Sul-Sul, o Brasil contribui para o desenho e a operacionalização de uma ordem multipolar mais justa, capaz de reduzir assimetrias históricas e de dar voz às nações que, por muito tempo, foram relegadas a papéis, no máximo, secundários.
O posicionamento brasileiro é muito mais do que diplomático; é sobretudo estratégico, para garantir soberania, desenvolvimento econômico centrado na vida digna para todos e na sustentabilidade socioambiental.

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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