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Cidadania

Da Praça do Namorados à Curva da Jurema, faltam espaços de convivência

Nas pistas para os automóveis já foram feitas várias obras de manutenção; o calçadão para pedestres continua o mesmo de quando foi implantado há quase trinta anos

Publicado em 16 de Junho de 2022 às 02:00

Públicado em 

16 jun 2022 às 02:00
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi Arlindo Villaschi
Sábado de carnaval na Curva da Jurema
Sábado de carnaval na Curva da Jurema Crédito: Fernando Madeira
O diálogo foi ouvido no calçadão da Curva da Jurema em recente entardecer de outono:
“Como é tudo bonito por aqui”
“Pena que não tenha onde sentar para poder apreciar melhor tanta beleza”
“Nem a beleza nem a alegria de quem está jogando na areia ou no campo aqui do lado”.
As duas pessoas que compartilham sua visão crítica são de aparência simples, mas sintetizam o que o direito de cidadania confere a quem reconhece a beleza da cidade e lamenta a falta de sensibilidade do poder municipal para com a necessidade de espaços públicos de convivência. No caso da área que vai da Praça do Namorados até a Curva da Jurema, o que se tem é a mesma prioridade ao fluxo que é dado aos veículos que transitam em paralelo.
Com uma diferença, para os automóveis tem mais áreas para estacionar do que o reservado para as pessoas sentarem; os automóveis estacionam de frente para o mar; os pedestres sentam em bancos de cimento sem qualquer conforto e na grande maioria das vezes de costas para a praia.
Nas pistas para os automóveis já foram feitas várias obras de manutenção; o calçadão para pedestres continua o mesmo de quando foi implantado há quase trinta anos. Esse diferencial de tratamento conferido a automóveis e pedestres em nada mudou apesar de discursos vazios aqui e acolá sobre a importância da cidadania.
O uso do espaço destinado a pessoas naquela área se intensificou ao longo do tempo pelo crescimento dos moradores em função do adensamento de habitações e outros usos na região onde se encontra. A chegada da pandemia acelerou esse uso mais intenso na medida em que lá passaram a ocorrer muitas atividades que antes se davam em espaços fechados de academias.
O que continua faltando são equipamentos que propiciem o aquietar contemplativo ou o parar para conviver com outras pessoas. Coisas simples como bancos confortáveis colocados de forma a facilitar conversas e silêncios. Ambos tão necessários nesses tempos de exaustão individual e esgarçamento social.
Tempos impossíveis de serem superados com o comportamento de avestruz que caracteriza os poderes públicos no Estado e na maioria dos municípios capixabas. Exaustão individual e esgarçamento social que se aceleraram com a pandemia mas que já estavam em andamento em função de uma ideologia que faz a apologia do individualismo como caminho único para o bem-estar coletivo.
Ideologia que se impõe em políticas públicas através de dogmas como o do equilíbrio fiscal e o do que só a busca do lucro a qualquer custo pode levar à eficiência do sistema econômico. Ideologia que dá sustentação à teologia da prosperidade e à falsa ideia de meritocracia.
Ideologia que se legitima através da indústria cultural que amplia sua presença através de meios de comunicação de massa financiados pelo capital improdutivo e redes sociais cada vez mais comandadas por algoritmos e instrumentalizadas por robôs.
Espaços públicos de contemplação e convivência como os reivindicados pelas duas caminhantes que inspiraram essa escrita pode ser uma alternativa para furar bolhas ideológicas e criar possibilidades para olhares mais críticos e mais ampliados. Sentido crítico e ampliado com vistas a uma outra sociedade desejada; com novas formas e conteúdos de relações entre humanos e entre eles e os demais seres viventes.

Arlindo Villaschi

Arlindo Villaschi Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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