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Guerra x ajuda

A aritmética da estupidez de certos humanos

Um outro mundo possível só surgirá com atitude ética, crítica e coletiva diante da banalização da violência, do reacionarismo político e da destruição socioambiental

Publicado em 24 de Julho de 2025 às 03:00

Públicado em 

24 jul 2025 às 03:00
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

A banalização do noticiário sobre violência ocorre em crescente aceleração, intensificação e ampliação desde o surgimento e a difusão das chamadas tecnologias da informação e das comunicações. O que até meados do século passado se resumia a periódicos expostos em bancas de jornais e noticiário de rádios em horários específicos, ganhou espaços 24 horas por dia em emissoras abertas e pagas de televisão e em redes sociais.
Pela televisão a violência é divulgada seja pela tela maior seja por mensagens legendadas que se sucedem competindo pela atenção do telespectador com outras matérias. Violência acompanhada em tempo real seja nas cidades próximas, seja nas guerras espalhadas mundo afora.
Cobertura de invasões em escala menor como as executadas pela polícia em favelas e bairros pobres, em dimensões maiores como as emblemáticas dos Estados Unidos a Bagdá em 2003 e as que Israel há muito faz a Gaza. Invasões acompanhadas em tempo real pelo telejornalismo profissional e por registros de moradores divulgados pela televisão e em redes sociais.
O Exército israelense afirma que o alvo era uma instalação de armazenamento de drones na área pertencente ao Hezbollah
O Exército israelense afirma que o alvo era uma instalação de armazenamento de drones na área pertencente ao Hezbollah Crédito: Reprodução/G1
Acompanhamentos e registros repetidos ao longo do dia e noite adentro que anestesiam quem a eles se expõem. O que antigamento dizia-se do jornais impressos que se torcidos derramariam sangue, hoje pode-se dizer das poças de sangue em ambientes onde se encontram aparelhos de tv, computadores e celulares.
Acompanhamentos e registros que levam pessoas de todas as faixas etárias a diversas formas de instabilidade emocional e que alimentam a crescente distopia que amplia a sensação de que no passado o futuro era melhor. Seja esse futuro econômico (diante na aumentada concentração de renda), político (tendo em vista a ascensão da direita radical) ou social (à luz do pouco acesso da maioria da população aos frutos do progresso socialmente construído).
A busca de caminhos alternativos a esse quadro geral pode começar por mais bem se informar sobre as crescentes diferenças entre o que governos de países mais ricos gastam com armamentos e o dispendem em programas de cooperação com países mais pobres. Ou seja, o que gastam com destruição humana, cultural, social, econômica e ambiental e os recursos que alocam para contribuir com eventuais compensações por seus históricos processos de colonização mundo afora.
Em 2024, os gastos militares globais atingiram um novo recorde, chegando a US$ 2,7 trilhões, com um aumento de 9,4% em relação ao ano anterior. Isso resultou na ampliação do ônus militar global – parcela do Produto Interno Bruto (PIB) global destinada a gastos militares para 2,5% no ano passado.
Em relação a gastos por país, os Estados Unidos lideram com folga (US$ 997 bilhões, o que representa 66% do gasto total da OTAN e 37% do gasto militar mundial em 2024). No que diz respeito ao crescimento com relação ao ano anterior, destaque para Israel (65%, atingindo 8,8% de seu PIB), Rússia (38%), Polônia (31%) e Alemanha (28%).
Enquanto isso, segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), a ajuda internacional de doadores oficiais caiu em 7,1% em termos reais entre 2023 e 2024. Exceção feita a Dinamarca, Luxemburgo, Noruega e Suécia, todos os demais países dessa organização que engloba a maioria dos países ricos gastaram abaixo dos 0,7% preconizados pela ONU como meta de ajuda oficial ao desenvolvimento.
Esse quadro tende a se agravar na medida em que radicais de direita assumem o poder e adotam medidas, como a de Trump nos EEUU, de desmonte das estruturas de cooperação com países pobres. Cooperação que nada mais é do que uma compensação irrisória por exploração colonial no passado ou neocolonial no presente, com destaque para a África e a América Latina e Caribe.
Quando se compara a meta de 2% do PIB com gastos em defesa defendida pela OTAN com os 0,7% do PIB com ajuda a países pobres desejado pela ONU fica clara a aritmética da estupidez de dirigentes dos países mais ricos no que se refere ao que deveria ser mais importante para a sociedade, a economia e o meio ambiente. Gastos com armamentos esgarçam sociedades, concentram a renda e destroem a natureza.
Apoio ao desenvolvimento humano em países pobres podem ser dirigidos para a valorização de suas culturas, para o deslanche de círculos virtuosos de crescimento econômico e para o enfrentamento de crises climáticas fundadas na destruição socioambiental. E isso certamente poderia contribuir para um outro mundo possível diferente das distopias do dia a dia.
Esse outro mundo possível está longe de nascer da passividade ou da espera por soluções vindas de cima. Ele exige de cada um e cada uma a determinação de se afastar das zonas de conforto que naturalizam a desigualdade, nada dizem diante da barbárie e se entregam ao consumo de informação apologética da violência como se espetáculo fosse.
Um outro mundo possível só surgirá com atitude ética, crítica e coletiva diante da banalização da violência, do reacionarismo político e da destruição socioambiental. O presente minado por distopias indica que o futuro precisa ser reimaginado já. Reimaginação que inspire ações conscientes de quem se recusa a aceitar o destino da humanidade de forma cínica.
Cinismo que é induzido pelos noticiários das corporações midiáticas e que ganha estatura nas redes sociais. Cinismo enquanto destino da humanidade que precisa ser negado por quem se recusa ser anestesiado e se quer desperto para compromissos transformadores.

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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