Localizada no Sudeste do Piauí, a Serra da Capivara é palco de muitos amores há mais de 40 mil anos. Alguns desses amores estão registrados em suas paredes através de pinturas rupestres que comprovam que por ali estiveram humanos muito antes dos que chegaram ao território das Américas através do Estreito de Bering.
Comprovação através de estudos meticulosos feitos pela pesquisadora Niède Guidon que deixou este plano da vida no início deste mês de junho. Seus primeiros contatos com indicações para estudos arqueológicos na Serra da Capivara foram no início dos anos 1960, mas a aproximação com o objeto de estudos que durou o restante de sua vida só ocorreu a partir dos anos 1970.
Dentre os resultados do programa de pesquisas que ela articulou com colegas franceses e brasileiros tem a indicação de que o Homo Sapiens atravessou o Oceano Atlântico vindo da África. Em seu entendimento, os vestígios das pinturas e dos esqueletos encontrados no Piauí, bem como os que na década de 1970 foram descobertos em Minas Gerais, têm características morfológicas de povos africanos e aborígenes. Diferentes, portanto, das de povos asiáticos, que teriam atravessado o estreito de Bering.
A força das evidências encontradas e comprovadas por Guidon e companheiros de pesquisa foram ampliadas na medida em que em uma área de aproximadamente 130 mil hectares foi criado em 1979 o Parque Nacional da Serra da Capivara. A relevância do que nele se faz em prol do melhor entendimento sobre a relação entre clima e a vida no planeta resultou em sua inscrição pela UNESCO na Lista do Patrimônio Mundial em 1991.
Para muito além do reconhecimento científico por suas pesquisas e de suas conquistas burocráticas para constituir e manter o Parque da Serra da Capivara, Niède Guidon pode ser saudada como uma visionária. Teve visão na construção de um projeto de desenvolvimento baseado na pesquisa científica e na preservação de recursos naturais em região considerada estigmatizada como pobre.
Impulsionou a economia circular a partir do parque com o fomento a atividades de pequenos empreendimentos voltados para desdobramentos do que nele ocorria e no atendimento ao turismo científico e contemplativo dele derivados. Dentre esses, os Museus da Natureza e o do Homem Americano e uma série de empreendimentos de menor porte voltados para o envolvimento da população local nos projetos de preservação.
Muitos jovens locais que começaram como auxiliares de pesquisas seguiram carreira e hoje têm graduação, mestrado e doutorado e atuam na continuidade do muito que ainda precisa ser pesquisado no parque. Dentre esses, destaque para uma jovem filha de moradores tradicionais na área tombada como parque.
A exemplo de muitos mais, foram desapropriados e em muitos casos expulsos da área e foram residir em uma das vilas que circundam o parque. As oportunidades geradas por projetos de Niède Guidon levaram a jovem Marian Helen da Silva Gomes a fazer doutorado na Europa e na atualidade ser a gestora do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) junto ao Parque Nacional da Serra da Capivara.
Para além dessa posição de relevo, constituiu com irmãos e conterrâneos o Instituto Olho D’Água cujo lema é ‘ressignificando o passado a serviço do presente e das futuras gerações’. Ressignificar para reconhecer protagonismo de gerações passadas de pequenos produtores rurais na preservação do que só a partir dos anos 1970 passou a ser preservado institucionalmente. Ressignificar a vida de muitas famílias que tiveram que migrar para áreas urbanas vizinhas ao parque em condições precárias. Ressignificar para que gerações futuras entendam o desenvolvimento da região também como fruto de gente humilde que no passado soube conviver com adversidades climáticas e econômicas.
Pesquisas arqueológicas que ressignificaram as primeiras presenças humanas no continente americano. Compromisso com a história das pessoas que ressignificam o sentido de desenvolvimento com respeito à natureza e às gerações futuras. Exemplos de arranjos institucionais que podem ressignificar a forma e o conteúdo de gestão de parques e unidades de conservação em qualquer parte do mundo. Inclusive no Espírito Santo!