A urbanização da área de aterro entre a Curva da Jurema e o Iate Clube nos anos 1970/80 aproximou a população do mar para além do ir à praia. A frequência diária de pessoas de todas as idades ao calçadão e aos equipamentos que ali foram implantados criou novas formas de relacionamento social e possibilidades alternativas de esporte e lazer.
Entre essas possibilidades, o uso de bicicletas para deslocamentos diários e como alternativa de exercício físico foi ampliado a partir dos anos 1990 graças ao engenho e arte da saudosa Detinha na implantação de ciclovias. Inicialmente e de forma tímida, as áreas de circulação para bicicleta foram se expandindo e passaram a fazer parte de todo projeto de urbanização de orlas em todo o Estado.
O crescimento do uso de bicicletas enquanto meio de transporte diário e enquanto instrumento de exercício físico e lazer tem sido exponencial. O ciclismo noturno, praticado por grupos de ciclistas que se encontram diariamente, mudou a paisagem das avenidas próximas ao mar em todos os municípios da Grande Vitória, principalmente na Capital.
A esses, se juntaram aqueles que fazem seus deslocamentos diários residência-trabalho-escola-lazer, de bicicleta. Mais recentemente, a esse grupo se juntaram os que transitam em veículos motorizados, de baixa cilindrada, e que, por isso, podem usar ciclovias e calçadas, quando houver sinalização de compartilhamento.
Com a facilidade de compra desses veículos motorizados, principalmente os movidos a baterias recarregáveis, a presença deles em ciclovias e calçadas vem crescendo exponencialmente. Mães e pais levando filhos menores para escolas; pessoas de todas as idades indo para suas atividades de esportes e lazer; profissionais fugindo do trânsito e dos altos custos de deslocamentos por automóvel privado passaram a ser mais a regra do que a exceção, como acontecia até pouco tempo atrás.
Dada a escala a que já chegou, com tendências de alta, essa nova e crescente demanda precisa ser disciplinada. Isso porque a total falta de qualquer sinalização urbana referente à prioridade de pedestres de todas as idades, principalmente de crianças e idosos, coloca-os em risco crescente. Risco que aumenta diante da ausência de indicações sobre a velocidade de segurança para todos. Risco ampliado pela inexistência de qualquer campanha educativa por parte do poder municipal.
Disciplinar o uso de ciclovias e calçadas por veículos motorizados de baixa cilindrada é uma emergência. Independentemente do que dizem os códigos de trânsito, desatualizados diante do aumento crescente desses veículos.
A falta dessa disciplina através de campanhas educativas e de ações restritivas, quando se fizerem necessárias, tem levado à insegurança de todas as pessoas que usam calçadas e ciclovias para deslocamentos por lazer e/ou para trabalhar e estudar. Nada justifica a ausência de políticas públicas voltadas para essa questão.
Essa disciplina se faz necessária para que a saudável fruição do espaço público e o usufruto da orla de nossas cidades possa ser seguro para todos, principalmente para os mais vulneráveis: crianças e idosos. Vale lembrar e ressaltar que os espaços urbanos são bens coletivos, cujo uso deve refletir o compromisso com a vida em comunidade.
Assim, diante do que se constata no dia a dia da apropriação coletiva de calçadas e ciclovias em nossas cidades, vale indicar, por um lado, que ao poder público cabe agir com urgência. E por outro, que a cada um de nós cabe exigir e praticar o respeito às regras de convivência. Que ciclovias e calçadas sejam caminhos de encontro, não de conflito. Que o direito ao lazer, ao transporte sustentável e à cidade seja, enfim, para todos - com segurança, dignidade e cuidado.